Milagres possíveis

Dentre os grandes lançamentos do final de 2012, “O Impossível” (The Impossible, de Bayona & Sanches, com atuação de Ewan McGregor e da magistral Naomi Watts) tem o diferencial de ser baseado em fatos reais – no caso, o tsunami ocorrido em 2004 no sul asiático. Tantas vidas foram afetadas por este desastre, que suas histórias viabilizariam centenas de filmes em torno do mesmo evento. Entretanto, pouquíssimas histórias poderiam gerar a exclamação de espanto “isto é impossível!”.

Não creio que meus comentários a seguir terão a dimensão de um spoiler, estragando as surpresas da história. Não é difícil imaginar o que acontece, se você considerar o seguinte: diante de um tsunami avassalador, que coisas poderiam ocorrer para uma história ser classificada como “impossível”?

Falemos, então, de outro termo muito utilizado em torno de eventos como os ocorridos neste filme. Este termo é “milagre”. Sempre que algo imensamente improvável acontece, a maioria de nós tem a inclinação de usar este termo para definir o evento. Milagre. Para alguns, a prova de que uma entidade benfazeja governa o Universo.

Lembro-me que, por ocasião do divertidíssimo “Quem Quer Ser um Milionário?” (Slumdog Millionaire, de Danny Boyle, 2008), uma amiga fez uma resenha sobre o filme. Em seu texto, ela dizia que a moral desta história era a seguinte: quem tem fé e acredita, será sempre beneficiado. Deus existe, é bom, e faz milagres.

Temos, aqui, pelo menos dois problemas. Em primeiro lugar, na prática, nem sempre “ter fé” e “acreditar” trará os resultados esperados. Muitas vezes temos o nosso desejo intenso simplesmente negado. Você descobre que tem câncer, é muito religioso, reza, faz novena… e morre. Você é uma pessoa boa, se sente merecedora, faz o bem, ajuda os outros e, mesmo assim, sua casa é arrastada por uma enchente. A vida pode ser mesmo muito implacável, apesar de nosso otimismo. Evidentemente, as histórias que vendem são aquelas nas quais o “acreditar” foi coroado com êxito. Sempre é possível contra-argumentar, dizendo que se algo não deu certo é porque a pessoa “não acreditou o suficiente”. Culpar o indivíduo é mais confortável do que se ver diante da possibilidade angustiante de que o Universo pouco se lixa pra você. E que não, não basta “acreditar muito” ou “ter fé”: se algo tiver que ocorrer, ocorrerá. Nossa mente não é onipotente.

Em segundo lugar, se utilizo os eventos de “Quem Quer Ser um Milionário” para admitir a intervenção divina, então devo admitir que este Deus está mais para Zeus do que para um Deus Cristão que ama a todos os seus filhos indistintamente. Sim, porque Zeus tinha preferidos, tinha eleitos. Amava uns, odiava outros, mal se apercebia da existência de tantos. É contraditório que um Deus que ame a todos os seus filhos indistintamente conceda tantos benefícios a um só indivíduo em detrimento de todos os outros. “Quem Quer Ser um Milionário” não é uma história da vitória da fé, nem da intervenção divina. É a história de uma série de acasos felizes extremamente improváveis, que se sucedem em torno de uma mesma pessoa. A isso, chamamos “sorte”. Note: são eventos muito improváveis, mas não são impossíveis. É altamente improvável que você acerte na mega sena. Impossível, não é. Mas e se você ganhar, você realmente acha que ganhou porque Deus te prefere? Eu sei o quanto esta perspectiva pode ser sedutora. Eu já me vi em situações (mais de duas), nas quais uma sucessão de eventos culminou no meu benefício direto. Algo em nossa natureza nos inclina a achar que, por conta destes acontecimentos improváveis, algo ou alguém nos prefere. Às vezes eu me pego achando isso. Tive golpes de sorte muito sérios na vida, onde o improvável se tornou real, e tudo foi suficientemente sedutor para eu poder achar que uma divindade entortou o Universo para me beneficiar. Todavia, não sou egocêntrico. Não acho que meus golpes de sorte sejam teologicamente satisfatórios, pois eu seilembro que bilhões de outras pessoas não têm a sorte sequer de ter o que comer.

Se há a probabilidade de algo muito bom ou muito ruim acontecer, ainda que esta probabilidade seja muito pequena, em algum momento ela irá ocorrer. Não irá ocorrer com todas as pessoas, é claro. Mas alguém, em algum momento na história e em algum lugar no mundo, vivenciará situações do tipo:

– Estar andando na rua e morrer porque a marquise de um salão de beleza desabou subitamente na cabeça da pessoa. Isto já aconteceu. Com o filho de uma amiga.

– Achar no chão um bilhete de loteria, e ele estar premiado. Em seguida, na mesma semana, ganhar dois carros em diferentes sorteios. Isto já aconteceu. Vi na TV.

– Estar à beira da morte e, repentinamente, o corpo se recuperar. Isto já aconteceu. Não é muito raro, a propósito.

– Participar de um programa de perguntas e respostas (estilo “Quem Quer Ser um Milionário”) e se ver diante de questões bizarras, mas – por coincidência, e não por estudar aquilo – lembrar das respostas. Isto já aconteceu. Comigo. Uma mescla de ótima memória e acaso.

– Estar dirigindo calmamente e um cavalo se jogar em cima do seu carro, numa grande metrópole (lugar onde geralmente não se vêem cavalos andando por aí), matando-o imediatamente. Isto já aconteceu. Com um amigo.

– Um tsunami violentíssimo golpear cinco pessoas de uma mesma família frontalmente, separando-as. E, mesmo assim… Bem, assistam ao filme. Isto aconteceu. E, enquanto você se emociona com “O Impossível”, lembre-se do ocorrido com milhares de outras pessoas: com elas, ocorreu o esperado numa situação dessas.

Evidentemente, “O Impossível” não é impossível. É apenas improvável. Curiosamente, costumamos chamar de “milagres” as coisas improváveis. O que não condiz com a verdade evocada por este termo. O milagre, stricto sensu, é a total contrariedade das leis da natureza. Algo como um boi voar. E, mesmo assim,   pode acontecer de o “milagre” ser apenas um evento natural, muito raro, por nós desconhecido (eclipses, por exemplo, já foram considerados milagres). Porém, algo positivo e improvável, sobretudo se for muito improvável, não é um milagre. É apenas algo bom, improvável, que nos coloca não diante da Vastidão da Justiça Divina. Ao contrário, nos coloca diante da indiferença do Universo. O bem, suposto impossível, ao ocorrer com uns e outros, ao se definir como tão raro que beira o bizarro, não me faz pensar na presença de Deus. Me faz pensar em sua profunda ausência e nas ironias do acaso.

Parece triste a minha perspectiva? Não, se você vir as coisas por outra ótica e prestar bastante atenção ao que ocorre em “O Impossível”, envolvendo a criança chamada Daniel. Lembre disso, quando assistir ao filme:

Na falta de entidades mágicas e divindades benfazejas, temos apenas uns aos outros para nos ajudar. E quando nos dispomos a isso, a esta solidariedade, o improvável se torna real. Curvamos as probabilidades para nosso próprio favorecimento e dos outros. Saber disso não me faz temer o acaso, ou a indiferença do Universo. Saber disso me faz entender que “Deus” é exatamente a diferença – na hora fatal – entre escolher ajudar Daniel ou ignorar seu chamado.

O retrato de Dorian Gray e a segunda lei da termodinâmica

Quando Oscar Wilde escreveu “O Retrato de Dorian Gray” em 1890 – esta que veio a ser uma de suas obras mais famosas – imagino que ele não soubesse quão coerente o seu conto foi com um conceito físico fundamental: a segunda lei da termodinâmica.

Não entrarei aqui nos meandros simbólicos do conto de Wilde. Já há análises demais a respeito de sua obra, e explicações sobre o quanto “O Retrato de Dorian Gray” é uma crítica contundente à cultura vitoriana. O que me interessa é abordar o processo mágico descrito no livro e aproveita-lo para expor um conceito científico importante.

Conforme nos ensina a segunda lei da termodinâmica, a entropia total (ou seja: o caos, a degeneração) de um sistema sempre aumenta. Em decorrência disto, não é de estranhar que – cedo ou tarde – todas as coisas se deteriorem. Desde uma estrela até um camundongo, todas as coisas estão fadadas a envelhecer e morrer. Você pode, é claro, retardar o processo degenerativo das coisas, seja cuidando de si mesmo para aumentar o tempo de vida, seja preservando um alimento na geladeira que, fora dela, apodreceria mais rápido.

Só que sempre que você diminui a entropia num sistema, você o aumenta em outro. Tomemos o caso da geladeira: ela realmente desacelera a velocidade com a qual os alimentos estragam. Um pedaço de carne que não duraria mais do que 24 horas em cima da pia, pode se preservar por quase um ano no congelador. A geladeira usa o resfriamento como um retardador da entropia. Entretanto, – e preste atenção, pois isto é importante – o resfriamento só ocorre porque a geladeira tem um motor. Este motor consome energia e se aquece. Quer dizer: para diminuir a entropia do lado de dentro, o sistema “geladeira” aumenta a entropia do lado de fora. A energia necessária vem de algum lugar, esgotando paulatinamente esta fonte.

Já li artigos nos quais os autores defendem ser a vida uma negação da entropia. Ou, pelo menos, suspeitam que a vida desafia a segunda lei da termodinâmica. Um físico alemão chamado Helmholtz chegou a falar em negentropia (entropia negativa) para se referir à vida. O próprio Schrodinger observou que os processos hereditários fazem com quem a ordem brote da ordem – afinal, um organismo vivo gera outro, evitando a decomposição. Ele chegou a declarar que a segunda lei da termodinâmica talvez não se aplicasse à matéria viva.

Mas há um equívoco aqui, provavelmente derivado do apego à ordem demonstrada pelos sistemas vivos. Só que esta “ordem” é temporária, e só existe se aumentar a entropia em outro lugar. De fato, sistemas vivos retiram ordem a partir do caos e parecem remar contra a maré.  Mas para qualquer coisa estar viva, ela precisa consumir outras coisas. Consumimos alimentos, água, luz solar. Dando-nos vida, o Sol morre um pouquinho a cada segundo. Em palavras simples: o aumento da ordem num ponto demanda degeneração em outro. Há sempre um preço a se pagar. Organismos vivos existem em perfeito acordo com a segunda lei da termodinâmica. Nada a contradiz. Como bem dizia o astrônomo britânico Arthur Eddington, “se você descobrir que a sua teoria contraria a segunda lei da termodinâmica, não posso lhe dar esperanças; sua teoria afundará em humilhação profunda“.

Notem que, em ficções de natureza mágica, a segunda lei aparentemente é deixada de lado. Se Harry Potter é capaz de fazer um objeto surgir do nada, ele está desafiando a termodinâmica. Em tese, este objeto materializado só seria possível se outro sistema fosse consumido. Mas, bem, não acho que a ficção tenha a obrigação de ser “científica” (mesmo quando se trata de ficção científica, o que não é o caso de “Harry Potter”).

Ainda que tal obrigatoriedade inexista, em “O Retrato de Dorian Gray” a segunda lei da termodinâmica se faz presente, mesmo na magia, o que é bem curioso! Quando o personagem principal, Dorian, deseja nunca mais envelhecer e imagina como seria bom se seu retrato envelhecesse por ele, um mecanismo mágico é disparado e o desejo é atendido. Imediatamente, Dorian Gray cessa de envelhecer. Mas a imagem em seu retrato, em compensação, acumula decadência a cada dia.

A segunda lei da termodinâmica não se limita ao retrato. Dorian Gray é um rapaz muito bem sucedido e feliz, mas a manutenção desta felicidade tem um efeito colateral: aumenta a desgraça de quem está ao seu redor. É como se, para ter mais sorte, Dorian consumisse a alegria alheia. Deste modo, o “sistema perfeitamente ordenado” chamado “Dorian Gray” só o é porque aumenta a degeneração em outros sistemas: o retrato e a vida dos outros. Sei que há muitas lições morais nesta obra de Wilde, mas a que eu mais gosto é esta: é impossível manter a ordenação de um sistema sem aumentar a degradação em outro lugar. 

Ou, melhor dizendo, “sorte minha, azar o seu”.

É a Internet uma revolução científica?

Uma das cenas que mais me marcou quando entrei no curso de Astronomia foi quando o professor de Cálculo Diferencial perguntou aos alunos – meio que como um teste, me pareceu – exemplos do que eles consideravam uma “revolução científica”. Na hora saquei a pegadinha, mas não é justo eu me sentir melhor por isso. Eu já tinha uma graduação prévia em Filosofia, e sem ela talvez tivesse incorrido no mesmo equívoco que meus colegas.

Éramos mais de noventa alunos reunidos num grande auditório, e cada um deu o seu palpite de alguma grande revolução científica. A esmagadora maioria dos presentes respondeu “internet”. Só que a resposta está errada, e o erro deriva da confusão entre os termos “revolução” e “progresso”. Na ciência, “revolução” não é “progresso”. Embora o primeiro implique o segundo, o segundo não desencadeia necessariamente o primeiro.

O erro na resposta não espanta, considerando que a Filosofia foi limada do currículo escolar durante tanto tempo. E considero uma pena que Filosofia da Ciência seja uma matéria optativa no currículo dos cursos de ciência naturais. Um estudante de Física, Astronomia, Meteorologia, Oceanografia etc. deveria ter uma noção clara e precisa do que significa uma revolução científica. Não se trata de mero acréscimo cultural. O que está em jogo é o correto entendimento do que vem a ser aquilo que você estuda.

A internet é um progresso científico, um progresso tecnológico, mas não é uma revolução científica. Se está correto dizer que a internet causou uma revolução social, modificando a forma como as pessoas se relacionam, se comunicam e têm acesso ao conhecimento, não podemos dizer que ela causou uma revolução científica. Sim, eu sei, você adora a internet e vai chiar, depondo sobre o quanto ela mudou sua vida. Se você tem menos de 30 anos, acredite, nem sentiu tanto as mudanças, pois a internet já era uma realidade na sua adolescência – mesmo que com o nada saudoso chiado das conexões dial up, que o diabo as carregue. Você cresceu com a internet. Mas para quem tem mais de 40 anos, as modificações no que tange a relacionamentos e acesso ao conhecimento foram gritantes.

Acontece que o conceito de “revolução científica” representa uma notável mudança na estrutura da própria ciência. A internet não causou mudanças na estrutura da ciência. Ela resulta da aplicação de modelos científicos já vigentes. Ela, a internet, é o resultado de um substancial progresso técnico, mas progresso não é sinônimo de revolução. Revolução científica desencadeia progresso, é verdade, mas progresso não necessariamente desencadeia revoluções paradigmáticas. O fato de a internet ajudar a divulgar a ciência constitui apenas um avanço das comunicações.

Dito de outra maneira: tudo o que a internet oferece já havia no mundo. As pessoas se comunicavam a longas distâncias, recebiam informações de lugares longinquos etc. O que mudou foi a forma e a velocidade como essas coisas passaram a ser feitas. Ou seja: um progresso tecnológico que desencadeou uma revolução relacional. Mas não uma revolução científica.

Revoluções científicas envolvem quebras de paradigmas, modificações radicais na forma de ver o mundo. A revolução copernicana é um exemplo de revolução científica: pensava-se que a Terra era o centro do Universo, e eis que de repente, não mais que de repente, fomos reduzidos a um mero mundo dentre tantos outros orbitando o verdadeiro centro do Sistema, uma estrela chamada “Sol”. O darwinismo é outra revolução científica, assim como a mecânica quântica (a verdadeira, não a pseudociência utilizada para envernizar propostas de terapias alternativas). Uma possível grande revolução científica se dará nos próximos vinte anos, quando talvez demonstraremos que existe vida bacteriológica em Titã, Europa ou Enceladus (satélites naturais de Saturno e Júpiter), mudando o paradigma vigente que diz que a vida é algo raríssimo. Astrobiólogos em geral apostam numa hipótese contrária: a atividade biológica é abundante no Universo. A vida inteligente, esta sim, é rara. Por enquanto é tudo aposta, evidentemente.

Por fim, devo lembrar que a única diferença substancial entre você ler o que eu escrevo neste blog e ter visto a propaganda dele no Facebook ou no Twitter é uma diferença de acessibilidade e de velocidade. Antes de 1997 você poderia ler o que eu escrevo, comprando uma revista, um jornal ou recebendo uma carta. Não há revolução científica contida em processos de “maior velocidade” ou “maior acessibilidade”. O que há, aqui, é um progresso referente a coisas que já existiam. Por mais mágico que possa parecer, por mais dinâmico e mais incrível que tudo isso se apresente, nada disso é uma “revolução científica”.

Mas é ótimo mesmo assim!

Literatura recomendada (e fundamental!) – “A Estrutura das Revoluções Científicas” – o autor é o filósofo da ciência Thomas Kuhn cuja foto ilustra esta postagem. A Editora Perspectiva fez uma ótima edição deste livro, mas ele também é encontrado em formato pdf. Google it!

Catastrofismo, em nove questões

Diante de uma imensa quantidade de e-mails e indagações que tenho recebido envolvendo falsas idéias a respeito de fenômenos astronômicos supostamente envolvendo o ano de 2012, resolvi criar um tópico expondo as dúvidas mais frequentes e suas respectivas respostas.

Questão 1 – Ocorrerá realmente um alinhamento raro envolvendo a Terra, o Sol e o centro da galáxia em 2012?

O que define uma reta é a existência de dois pontos. Uma vez que a Terra gira em torno do centro da galáxia, ela sempre está alinhada com o centro.

Já no que diz respeito a um alinhamento envolvendo a Terra, o Sol e o centro galáctico, este alinhamento ocorre todos os anos, entre os dias 12 e 21 de dezembro. Não há nada de raro neste evento astronômico.

Além disso, não há nenhum alinhamento planetário especial no ano de 2012 e, mesmo que todos os planetas se alinhassem [coisa que ocorre com relativa frequência], isso não causaria tsunamis nem terremotos. A interferência gravitacional, irrisória, não seria suficiente para isso.

Questão 2 – É verdade que o centro de nossa galáxia é um buraco negro?

Sim, provavelmente é verdade. Algumas pessoas dizem que no centro galáctico está uma estrela da constelação de Sagittarius, mas esta informação não é exatamente a correta. O fato é que esta estrela da constelação de Sagittarius orbita um buraco negro supermassivo no centro da galáxia.

Questão 3 – Este buraco negro é perigoso para nós? Pode nos afetar?

A distância do Sol ao centro da galáxia é estimada em aproximadamente 30 mil anos-luz. Isso significa que um corpo viajando à velocidade da luz demoraria 30 mil anos para sair da Terra e chegar ao centro galáctico, e vice-versa. Considerando que um ano-luz equivale a aproximadamente 94605284000000000 metros, 30 mil anos-luz significam uma distância imensa! Dada esta tremenda distância, o buraco negro no centro da galáxia não pode nos afetar fisicamente.

Questão 4 — Explosões solares podem desencadear terremotos e atividade vulcânica, como visto no filme “2012″?

Em teoria sim, caso fossem explosões intensas o suficiente para aquecer o interior da Terra. Entretanto, caso isso ocorresse, terremotos seriam a menor das nossas preocupações, pois seríamos todos cozidos. É altamente improvável que uma explosão solar desta magnitude ocorra, envolvendo o nosso Sol – ao menos nos próximos bilhões de anos!

No caso do filme 2012, o que ocorre no enredo é totalmente nonsense [o que não é um problema, considerando que a proposta da obra é ser ficcional e, como já conversamos em outro post, ficção científica não tem que ser “cientificamente correta”!]. Explosões solares que agissem como microondas no interior da Terra teriam antes cozinhado a superfície e matado a todos.

Questão 5 – É verdade que a Lua está se afastando da Terra? O que acontecerá quando ela nos deixar completamente?

Sim, a Lua se afasta do nosso planeta paulatinamente, mais ou menos 3,8 centímetros por ano. Vai demorar muito, muito tempo até ela sair da órbita da Terra. Bilhões de anos. Por conta do afastamento, a velocidade de rotação da Terra diminui em aproximadamente 2 milésimos de segundo por século. Ou seja: você não perceberá diferença nenhuma…

Antigamente, quando a Lua era mais próxima, quase um bilhão de anos atrás, o dia terrestre durava 18 horas e a Lua aparecia maior no céu do que aparece hoje.

Na medida em que a Lua se afasta, a Terra perde velocidade. Quando a Lua se desgarrar completamente, a Terra cessará de rodar em torno de si mesma, e nós teremos uma face do planeta onde será dia eterno e uma face onde será noite eterna. Estas condições inviabilizarão a vida da maioria dos organismos, pois a face diurna será mais quente do que conseguimos suportar, e a face noturna será extremamente fria. Mas isso só ocorrerá daqui a bilhões e bilhões de anos. Novamente, nada que você deva temer.

Questão 6 – Devemos temer a explosão de alguma supernova?

É muito pouco provável que venhamos a sofrer as consequências da explosão de uma eventual supernova. Antes de tudo, convém explicar o que vem a ser uma supernova: trata-se de um corpo celeste decorrente da explosão de uma estrela que possui massa dez vezes superior à do nosso Sol. Quando uma estrela deste tipo explode, libera um brilho que pode ser até um bilhão de vezes mais intenso do que o seu brilho original. Mas isso só dura algumas semanas ou meses. Uma ocorrência assim seria certamente devastadora para a vida terrestre, mas não há nenhuma estrela próxima ao nosso sistema solar com risco de se tornar uma supernova. A estrela mais próxima de nós que poderia se tornar uma supernova é a IK Pegasi, mas ainda assim ela se encontra distante demais para nos fazer algum mal.

A Terra se encontra num lugar privilegiado, seguro e estável da Via Láctea.

Questão 7 – É verdade que existe um planeta gigante em rota de colisão com a Terra, que os antigos chamavam de Nibiru?

Não, isto não é verdade. Um corpo planetário tão grande seria perfeitamente avistado com grande antecedência. O que costuma pegar astrônomos de surpresa são corpos extraterrestres pequenos. As lendas sobre Nibiru se referem a um corpo planetário imenso, mais ou menos como o que aparece no filme “Melancolia”, de Lars Von Trier.

Questão 8 – Os maias previram realmente o fim do mundo para 2012?

O fato de o calendário maia acabar em 2012 não significa que eles acreditavam que este ano representasse o fim do mundo. Poderia representar o fim de um ciclo significativo para a mitopoética Maia. Ou muitas outras coisas. E ainda se os antigos maias tivessem dito claramente que o mundo acabaria em 2012, por que isso seria necessariamente verdade? Só porque a civilização deles está envolta em mistérios?

Vale dizer que não temos a menor ideia do que os maias realmente pensavam. Eles tinham uma astronomia bastante avançada, mas um bispo católico chamado Diego de Landa – que viveu em Yucatán entre 1549 e 1578 – praticamente destruiu quase toda a obra Maia, considerada “pagã”. Sobrou-nos tão pouca coisa, que não é nem justo e nem honesto nos arvorarmos a afirmar o que aquela antiga cultura pensava, em termos de metafísica ou ciência. Da vastidão de manuscritos maias existentes, nos restaram… apenas quatro.

Questão 9 – Há algo que poderíamos de fato temer?

Sim, as compras de natal. Elas são terríveis, e você pode ficar muito doente ao passar pelo stress de entrar num shopping nesta época do ano.

No que diz respeito a fenômenos astronômicos, meteoros e colisões com asteróides são sempre um perigo, e poderiam causar desastres terríveis que dificilmente acabariam com a vida na Terra, mas poderiam destruir países inteiros. Nenhum destes meteoros ou asteróides tem nem uma fração do tamanho apontado pela lenda do planeta Nibiru. São corpos bem menores, mas poderiam causar grande estrago. Caso um corpo de grandes dimensões viesse em direção à Terra, poderíamos redirecioná-lo, mudando sua rota. Mas, para isso, seria preciso primeiro identificá-lo. Daí a importância de um programa de investigação espacial!

Por incrível que pareça, uma das coisas mais perigosas é algo que quase ninguém conhece: surtos de raios gama. Explosões de raios gama, mesmo ocorrendo em locais muito distantes da galáxia, poderiam também extinguir a vida na Terra, mas não esterilizá-la completamente. A escala de ocorrência de fenômenos assim é de aproximadamente 1 bilhão de anos. A nossa galáxia não é do tipo em que explosões de raios gama ocorrem com frequência. No que diz respeito a isso, caso ocorresse, nada poderíamos fazer. Mas a probabilidade de um fenômeno assim ocorrer é tão pequena que nem vale a pena perder o sono pensando nisso. É mais fácil um piano cair na sua cabeça, ou você ser morto por um raio, do que a vida na Terra ser extinta por um surto de raios gama.

Os maiores perigos para a vida na Terra, por enquanto, são aqueles que nós mesmos criamos.

O que é a vida, afinal?

Pretender definir de forma realista o que é a vida nos apresenta à tentação ingênua de considerar esta como sendo uma questão cuja resposta é óbvia, sobretudo se nos limitarmos a definições de dicionário, ou pior, a definições simplistas fornecidas por alguns livros do ensino médio. Encaremos os fatos: nenhum cientista sabe apontar exatamente o que a vida é ou, melhor dizendo, qual a diferença efetiva entre um dito “sistema vivo” e um “sistema não-vivo”. É possível discordar disso e argumentar que nós sabemos intuitivamente se algo é vivo ou não, mas consistiria ingenuidade crassa se nos detivéssemos na observação limitada e confundente dos nossos sentidos, que mal sabem distinguir entre uma pedra e sapo mimetizado. Na prática, todas as definições aplicadas ao conceito “vida” nos servem num âmbito local, pragmático, mas não podemos garantir que tais definições sejam válidas num contexto cósmico.

Considerar, conforme aprendemos no colegial, que “ser vivo” é “todo ser que nasce, cresce, reproduz e morre”, seria preguiça intelectual. Afinal, nem todo ser vivo é capaz de se reproduzir [asnos são estéreis, assim como algumas pessoas e animais e, não obstante isso, são seres vivos]. Por outro lado, é irônico constatar que cristais e fogo podem se reproduzir e não são considerados, stricto sensu, como “seres vivos”.

Chamamos os processamentos químicos e a liberação de energia de “metabolismo”. Mas há seres vivos que passam longos ciclos de tempo com suas funções metabólicas completamente suspensas [algumas bactérias, por exemplo], e então de repente voltam aos usuais processamentos químicos.

Poderíamos assumir como bem fundamentada a idéia de que a distinção entre algo vivo e algo inorgânico reside no fato de que algo inorgânico é imensamente previsível, se comparado a algo orgânico. Se atirarmos uma pedra para cima, poderemos determinar onde e quando ela cairá, mas a mesma previsão não pode ser feita se tentarmos realizá-la até mesmo num organismo simples como uma ameba. Simplesmente não podemos ter certeza de para onde uma ameba decidirá ir. Ou seja, a vida seria a afirmação daquilo que Schopenhauer chamava de “vontade” ou “ímpeto”. Mas ainda que assumamos tal definição como sendo correta, teremos de considerar que determinados programas computacionais capazes de gerar padrões fractais aleatórios são, portanto, vivos!

Ou seja: não há absolutamente nenhuma definição simples que permita distinguir algo vivo de algo não-vivo. Até mesmo cientistas de orientação totalmente materialista e negadores das teorias do vitalismo são tácitos em afirmar que não existe uma linha divisória nítida entre sistemas vivos e não-vivos. Não existe um “algo” vivo, e sim uma série de processos desconhecidos que permitem que algo seja vivo. Termina sendo tentador apostar nas teorias vitalistas clássicas, que pregam a impossibilidade de determinar a vida apenas a partir de processos físico-químicos. Haveria, então, uma “alma” ou algo incorpóreo a animar as coisas vivas? Esta é uma possibilidade, e ainda que aparentemente seja pouco “científica”, vale aqui lembrar que o terreno da ciência não é o terreno da negação. Mais interessante ainda é considerar que a alma exista, mas não como algo “descolado” da matéria, e sim como uma conseqüência natural da própria matéria. Pode ser que esta dita “energia que anima” os corpos ditos vivos seja a emergência de complexidade, uma espécie de “situação-cúmulo” que surge espontaneamente – como uma lei física – a partir de relações e organizações especiais. Neste sentido, a vida seria uma autopoiesis, definição que implica numa radical mudança de perspectiva epistemológica. Seria inútil, numa perspectiva autopoiética, analisar as partes em busca da “coisa em si” que revela a vida. Ela, a vida, só poderia ser compreendida como uma rede relacional. Mas se admitirmos a vida como uma grande teia autopoiética, não seria possível então afirmar que o Universo é, inteiro ele, um super-ser vivo?

A vida insiste em ser mais do que uma definição científica: ela ainda é, para nós humanos, um problema filosófico.

A Síntese de Miller-Urey e os perigos do “wishful thinking”

Em 1953, um ganhador do Prêmio Nobel da Química[1], Harold Urey, resolveu realizar um experimento em laboratório (contando com a ajuda de seu assistente, Stanley Miller), construindo um pequeno ambiente prebiótico numa garrafa, uma “Terra primordial”, por assim dizer, combinando metano, hidrogênio e amônia. Com todos estas substâncias numa garrafa (hermeticamente fechada) com água, Urey e Miller fizeram passar uma faísca elétrica pela mistura, como se fosse um raio. Após alguns dias, constataram que a água do recipiente subitamente passou a apresentar vários aminoácidos – ingredientes fundamentais em toda vida conforme a conhecemos.

Se produzir aminoácidos é tão simples, não é de estranhar que sejam encontrados em meteoritos e no próprio espaço. A combinação eventual das substâncias certas, perpassadas por eletricidade, geraria moléculas orgânicas, fatalmente. Mas é importante ter cautela diante de tais constatações, pois moléculas orgânicas não são sinônimo de “vida”.

Citando uma alegoria frequentemente utilizada pelo físico Paul Davies, uma coisa é identificarmos o material que permite a construção de uma casa, outra bem diferente é encontrarmos uma casa construída. Criar aminoácidos não demanda muito trabalho, mas fazê-los criar ligações a fim de formar peptídeos é um processo que não é favorecido pelas leis da termodinâmica, ou seja, não ocorre espontaneamente. Evidentemente, a segunda lei da termodinâmica é uma lei estatística: ela não impossibilita, apenas mostra que determinadas coisas são improváveis. Não é absolutamente impossível, por exemplo, que atiremos várias letras para o alto e elas desabem criando um poema. Se as letras forem atiradas bilhões, trilhões de vezes, em algum momento elas podem até compor um poema. Isso não é impossível, mas é improvável, no sentido estrito do termo: a probabilidade maior é o caos, não a ordem.

O bioquímico norte-americano Sidney Fox demonstrou que, ao aquecermos fortemente uma mistura de aminoácidos, a água sai como vapor e a ligação dos aminoácidos em cadeias peptídicas se torna mais provável. Entretanto, mesmo estes polipeptídeos longos produzidos por Fox poderiam no máximo ser considerados “proteinóides”, e não proteínas. Até porque a quiralidade dos proteinóides de Fox apresenta igual combinação para a esquerda e para a direita, enquanto que as proteínas “vivas” são, conforme explicado nesta monografia, exclusivamente levógiras (para a esquerda).

(Sobre o que é quiralidade, busque no Google ou veja outro artigo neste blog: “O Universo Biofílico”)

Ainda discorrendo sobre probabilidade: há cerca de 10130 arranjos diferentes de aminoácidos numa pequena proteína que contenha cem aminoácidos de vinte variedades. Isto é imensamente maior do que o número de estrelas da Via Láctea, mesmo nas estimativas otimistas (400 bilhões). Não seria nada absurdo, portanto, considerar que uma galáxia inteira poderia não ter atividade biológica de forma alguma, ainda que haja abundância de moléculas orgânicas nesta galáxia. Ou seja: ainda que a presença de moléculas orgânicas em meteoritos seja explicada pela síntese Miller-Urey, nada disso garante a existência de vida alienígena.

O jornalista científico Michel de Pracontal atenta constantemente em suas obras para os perigos decorrentes daquilo que chama de wishful thinking (uma possível tradução seria “pensamento desejoso”). Segundo Pracontal, o desejo de que algo seja verdade pode fazer o cientista extrapolar os dados que coleta, a fim de chegar às conclusões que tanto deseja, num processo que é, via de regra, não-intencional. Assim como alguns cientistas renomados enxergaram formas de algas em meteoritos no passado do mesmo modo que somos capazes de ver rostos em nuvens (como no caso do meteorito francês “Orgueil”), aumentar demasiadamente a probabilidade da existência de vida fora da Terra apenas porque aminoácidos orgânicos foram detectados em ambientes alienígenas é sucumbir ao delicado e perigoso wishful thinking. Novamente, vale citar Davies: encontramos os tijolos, mas não uma casa.


[1] Em decorrência da descoberta do deutério, uma forma alotrópica do hidrogênio.