Ciência na ficção: uma obrigação?

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Quando lemos um conto ou assistimos a um filme ficcional, nós costumamos realizar – de modo pouco consciente, a bem da verdade – um exercício chamado suspensão da descrença. Fazemos de conta, por algumas horas, que a realidade a nós apresentada sob a forma de ficção é aceitável. Deste modo, a nossa mente lida com elementos altamente improváveis, como magia, pessoas levitando, mortos ressuscitando, fantasmas assombrando, discos voadores e tantas outras coisas. A quantidade de improbabilidades que se desfilam ao nosso olhar  no universo de filmes e contos é, dirão alguns, uma sofisticada forma de evasão. Outros, mais abertos, verão na fantasia um saudável exercício de criatividade.

Um dos mais famosos escritores de ficção científica, Arthur Clarke, dizia que qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia. E, de fato, se no século XIII alguém escrevesse um conto de ficção que considerasse a existência de meios voadores de transporte ou a possibilidade de uso de pequenas caixas que permitem a comunicação à distância, isso não seria evasão. Seria antecipação criativa – e das boas!

Há, entretanto, um tipo de pessoa que é constantemente acusada de não conseguir exercitar o jogo lúdico da suspensão da descrença: os cientistas. Tal acusação sempre me pareceu por demais injusta, mesmo antes de me tornar – eu mesmo – um estudante de ciências naturais.

Absurdos científicos na ficção? E daí?

Não que cientistas em geral não se divirtam apontando os absurdos que se desfilam em obras ficcionais. Em Guerra nas Estrelas, temos sons de explosão no espaço sideral. Mas como, se o som não se propaga no vácuo? Uma nave pousa no planeta Saturno em Jornada nas Estrelas. De que forma, se Saturno é um planeta gasoso? Qualquer nave capaz de resistir à poderosa gravidade deste planeta, aproximando-se sem se destruir, não encontraria superfície sólida para pousar. Uma explosão gama transforma um homem franzino numa criatura fortíssima, como em O Incrível Hulk, sendo que em verdade o fatídico impacto resultante à radiação gama direta seria a morte imediata do organismo. Em fóruns virtuais de discussão de ficção científica, não é incomum que nos vejamos diante de listas do tipo “as maiores bizarrices contidas em filmes ficcionais”. Neste parágrafo, apresentei apenas três. Acredite: a lista é pelo menos vinte vezes maior.

Pesa em favor dos amantes da ciência o fato de que tais exercícios de “identificação de bizarrices” constituem tão-somente uma forma bem humorada de demonstrar conhecimento. Na prática, verifico o oposto: cientistas e estudantes de ciências praticamente adoram a tal suspensão da descrença, e não apenas lidam muito bem com distorções da realidade, como apreciam este tipo de exercício. Porque, de fato, é muito difícil encontrar uma alma de cientista que não aprecie, ao mesmo tempo, a ficção científica.

Física e realidade

A própria Física, por exemplo, não diz respeito necessariamente à realidade em seu sentido estrito. Parece irônico que a Física apenas se baseie em fatos reais, mas é isso que acontece. Estudantes lidam com ficção o tempo todo: desconsidere o atrito do ar, pede o exercício, exigindo que acreditemos num mundo em que o ar não provoca atrito; considere que se trata de uma polia ideal, declara o professor ao apresentar uma prova final.

Sempre que um exercício apresenta as palavras considere e desconsidere, ele está na prática solicitando uma suspensão da descrença. Está a dizer: isso é ficção, ok, mas acredite nisso por um minuto, pois apenas assim você poderá resolver o exercício. Os exemplos são extremamente vastos, e têm por objetivo compensar o fato de que a Física não se enquadra perfeitamente no que chamamos de “ciência exata”, sendo melhor definida como uma “ciência da natureza” – e, bem, não é preciso um olhar muito atento para compreender que a natureza escapa a modelos exatos. Se fôssemos considerar a realidade tal qual ela é num exercício de Física, não conseguiríamos solucioná-lo a contento simplesmente porque não sabemos como “é” a realidade de fato. Resolver um exercício, portanto, é encontrar uma resposta a partir de um modelo. No mundo real, o atrito do ar não pode ser desconsiderado, e não existe algo tal qual uma polia ideal. Polias ideais fazem parte do mundo das ideias, e aqui Platão talvez esboçasse um sorriso. E, note bem: estou dando exemplos óbvios, porque a coisa na prática é ainda mais complicada. Nem entrei nos meandros enlouquecedores da teoria quântica, onde nossos conceitos de realidade são desafiados.

O emaranhamento da ficção com a Física é muito mais amplo, e não se limita a questões apresentadas a estudantes de graduação. A situação se torna problemática quando o próprio físico, sobretudo o contemporâneo, não parece consciente dos pontos falhos existentes naquilo que filósofos da ciência chamam de “credo do físico ingênuo”. Uma das premissas da Física, por exemplo, é a de que a observação é a fonte de todo conhecimento físico. Será mesmo? Em parte, tal afirmação é verdadeira, pois é evidente que a observação fornece conhecimento. Todavia, é inegável que o conhecimento físico vai além da mera observação empírica. Físicos estão a todo momento postulando a existência de entidades inobserváveis: elétrons, por exemplo. Ninguém “vê” um elétron. Considera-se que ele exista, pois sua existência permite a plausibilidade de modelos teóricos que têm se revelado como muito consistentes até o presente momento. Não é nada impossível que, no futuro, abandonemos este modelo e o substituamos por outro.

Poder-se-ia argumentar, contudo, que hipóteses e teorias que não advêm da observação (caso do elétron) não têm exatamente um conteúdo físico, sendo melhor definidos como referências matemáticas, ou conceitos transempíricos, tendo um papel auxiliar. Este tipo de argumento é comum aos convencionalistas, e tem o mérito histórico de ter permitido o descrédito do realismo ingênuo. E é justamente quando rompemos com tal realismo ingênuo que compreendemos que a Física não é um “retrato da realidade”, mas demanda simplificações tão intensas que chegam a ser brutais. Voltando aos exemplos escolares: os esquemas ideais apresentados num exercício não correspondem à realidade. E aqui chegamos ao ponto que eu queria desde o início: estamos a todo momento lidando com ficção.

É claro que a Física não é em si mesma uma ficção, mas é fato que muitos de seus conteúdos não são “reais”, no sentido estrito do termo. Ora, se uma teoria não versa sobre sistemas puramente físicos e inclui conceitos matemáticos (os tais conceitos transempíricos), esta teoria não se qualifica como inteiramente “física”. Daí ser falsa a crença de que a Física lida com realidade, pelo menos no sentido estrito desta palavra. Ela lida com teorias de realidade, modelos que podem perfeitamente ser contestados e substituídos por algo novo. Quem não lembra do modelo de átomo proposto por Rutheford? Todos nós o aprendemos no ensino médio, e passamos a ver átomos como minúsculos sistemas planetários, em que o núcleo cumpria o papel de estrela, sendo os elétrons comparados com os planetas orbitando. Este modelo de realidade, ele mesmo inteiramente teórico e não pautado em observações diretas, foi substituído por outro modelo. Não dizemos que este novo modelo é “mais real” que o de Rutheford, e sim que é “melhor adequado” às novas teorias, e talvez venha a ser substituído num futuro não tão distante.

Criando um novo mundo

O exercício da imaginação é, portanto, parte integral do cotidiano não apenas de um autor de obras ficcionais, mas também de todo e qualquer cientista. Conforme nos explica Hans-Georg Gadamer[1], a obra de ficção não parte do nada. Ela leva em conta um recorte da realidade, mas vai muito além da realidade em si. Não se trata de uma simples transferência de um mundo (real) para outro (ficcional). Veja bem: é claro que o mundo ficcional é outro mundo, fechado em si, no qual um jogo é jogado. Esta dimensão ficcional encontra sua medida nela própria, e não deve ser julgada a partir de nada que esteja fora de si mesma, de seu próprio “novo universo”. É absolutamente injusto compararmos a ficção com a realidade cobrando acertos científicos, como se tal realidade fosse a medida secreta de todas as coisas. A ficção científica, portanto, pode – ou não – ser uma previsão de nosso futuro.

Assim como num exercício de Física, quem cria um novo mundo tem de deixar coisas de fora, ou mesmo exagerar algo. Toda criação artística ficcional é um exagero, um exercício que em alguns momentos encontra ecos em nosso mundo, oras não. E, como nos ensina Gadamer, é totalmente absurdo querer supor que exista uma “representação correta” da realidade, em face de nossa finitude histórica. Por isso, filosoficamente falando, podemos afirmar que toda criação artística e ficcional é, em si mesma, absolutamente correta. Trata-se de um mundo novo, com leis próprias.

Dito de outro modo, no mundo de Guerra nas Estrelas, o som se propaga no vácuo. No mundo do Incrível Hulk, raios gama podem tornar as pessoas superfortes. E, no planeta Saturno de um universo paralelo, é possível pousar. Simples assim.

Crônicas da Superterra

Ainda que eu particularmente não veja, portanto, nenhuma obrigatoriedade da ficção científica com o dito “mundo real”, As Crônicas da Superterra têm uma proposta que me é muito cara. Procurei, na medida do possível, criar este “novo mundo” o mais próximo possível do nosso. Não irei estragar a história com spoilers, já que ela é cheia de surpresas. Mas quero deixar claro o meu comprometimento com muitos fatos científicos reais. Se o faço, é meramente pelo prazer de imaginar que estarei não apenas entretendo, como também informando.

E como o “sobrenatural” entra neste novo universo que acabo de criar? Stephen King costuma dizer que há dois tipos de contos fantásticos: aquele que já começa repleto de elementos incríveis, e aquele que começa totalmente banal, relatando vidas comuns e, com o passar do tempo, o fantástico se infiltra. King prefere os contos do segundo tipo. E eu também. Embora – admito – é mais arriscado escrever assim. Assumo o risco.

Dito tudo isso, eis meu objetivo: a partir do romance ficcional, a partir deste outro mundo, instigar a curiosidade do leitor para maravilhas fascinantes do nosso próprio mundo, fazê-lo se apaixonar pela ciência e, sobretudo, pela Astronomia. Se em algum momento eu por acaso acertar em meus exercícios futurológicos, saiba que isso foi apenas coincidência. Às vezes os universos colidem, e a fantasia se revela mais verdadeira que a realidade.

Ou não.


[1] Hans-Georg Gadamer (1900-2002): Filósofo alemão, um dos maiores especialistas em hermenêutica filosófica da contemporaneidade, autor de Verdade e Método.

Um pensamento sobre “Ciência na ficção: uma obrigação?

  1. Acho que a questão não é tanto a suspensão da descrença, mas a plausibilidade da proposta. Aceitamos que o super-homem pode voar, é à prova de balas, dentre outros, desde que a história dê justificativas plausíveis, dentro daquele universo, não do universo real, para os seus poderes. Nisso reside, pra mim, o sucesso da ficção. Assim, é possível aceitar seus super-poderes, ao passo que não dá pra engolir John McClain derrubando um F-18 praticamente com as próprias mãos. Não é possível no universo de Duro de Matar, mas ele o fez, o que tornou a história tosca. Se o Super-homem fizesse exatamente o mesmo, aceitaríamos facilmente.

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