A Síntese de Miller-Urey e os perigos do “wishful thinking”

Em 1953, um ganhador do Prêmio Nobel da Química[1], Harold Urey, resolveu realizar um experimento em laboratório (contando com a ajuda de seu assistente, Stanley Miller), construindo um pequeno ambiente prebiótico numa garrafa, uma “Terra primordial”, por assim dizer, combinando metano, hidrogênio e amônia. Com todos estas substâncias numa garrafa (hermeticamente fechada) com água, Urey e Miller fizeram passar uma faísca elétrica pela mistura, como se fosse um raio. Após alguns dias, constataram que a água do recipiente subitamente passou a apresentar vários aminoácidos – ingredientes fundamentais em toda vida conforme a conhecemos.

Se produzir aminoácidos é tão simples, não é de estranhar que sejam encontrados em meteoritos e no próprio espaço. A combinação eventual das substâncias certas, perpassadas por eletricidade, geraria moléculas orgânicas, fatalmente. Mas é importante ter cautela diante de tais constatações, pois moléculas orgânicas não são sinônimo de “vida”.

Citando uma alegoria frequentemente utilizada pelo físico Paul Davies, uma coisa é identificarmos o material que permite a construção de uma casa, outra bem diferente é encontrarmos uma casa construída. Criar aminoácidos não demanda muito trabalho, mas fazê-los criar ligações a fim de formar peptídeos é um processo que não é favorecido pelas leis da termodinâmica, ou seja, não ocorre espontaneamente. Evidentemente, a segunda lei da termodinâmica é uma lei estatística: ela não impossibilita, apenas mostra que determinadas coisas são improváveis. Não é absolutamente impossível, por exemplo, que atiremos várias letras para o alto e elas desabem criando um poema. Se as letras forem atiradas bilhões, trilhões de vezes, em algum momento elas podem até compor um poema. Isso não é impossível, mas é improvável, no sentido estrito do termo: a probabilidade maior é o caos, não a ordem.

O bioquímico norte-americano Sidney Fox demonstrou que, ao aquecermos fortemente uma mistura de aminoácidos, a água sai como vapor e a ligação dos aminoácidos em cadeias peptídicas se torna mais provável. Entretanto, mesmo estes polipeptídeos longos produzidos por Fox poderiam no máximo ser considerados “proteinóides”, e não proteínas. Até porque a quiralidade dos proteinóides de Fox apresenta igual combinação para a esquerda e para a direita, enquanto que as proteínas “vivas” são, conforme explicado nesta monografia, exclusivamente levógiras (para a esquerda).

(Sobre o que é quiralidade, busque no Google ou veja outro artigo neste blog: “O Universo Biofílico”)

Ainda discorrendo sobre probabilidade: há cerca de 10130 arranjos diferentes de aminoácidos numa pequena proteína que contenha cem aminoácidos de vinte variedades. Isto é imensamente maior do que o número de estrelas da Via Láctea, mesmo nas estimativas otimistas (400 bilhões). Não seria nada absurdo, portanto, considerar que uma galáxia inteira poderia não ter atividade biológica de forma alguma, ainda que haja abundância de moléculas orgânicas nesta galáxia. Ou seja: ainda que a presença de moléculas orgânicas em meteoritos seja explicada pela síntese Miller-Urey, nada disso garante a existência de vida alienígena.

O jornalista científico Michel de Pracontal atenta constantemente em suas obras para os perigos decorrentes daquilo que chama de wishful thinking (uma possível tradução seria “pensamento desejoso”). Segundo Pracontal, o desejo de que algo seja verdade pode fazer o cientista extrapolar os dados que coleta, a fim de chegar às conclusões que tanto deseja, num processo que é, via de regra, não-intencional. Assim como alguns cientistas renomados enxergaram formas de algas em meteoritos no passado do mesmo modo que somos capazes de ver rostos em nuvens (como no caso do meteorito francês “Orgueil”), aumentar demasiadamente a probabilidade da existência de vida fora da Terra apenas porque aminoácidos orgânicos foram detectados em ambientes alienígenas é sucumbir ao delicado e perigoso wishful thinking. Novamente, vale citar Davies: encontramos os tijolos, mas não uma casa.


[1] Em decorrência da descoberta do deutério, uma forma alotrópica do hidrogênio.

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