O retrato de Dorian Gray e a segunda lei da termodinâmica

Quando Oscar Wilde escreveu “O Retrato de Dorian Gray” em 1890 – esta que veio a ser uma de suas obras mais famosas – imagino que ele não soubesse quão coerente o seu conto foi com um conceito físico fundamental: a segunda lei da termodinâmica.

Não entrarei aqui nos meandros simbólicos do conto de Wilde. Já há análises demais a respeito de sua obra, e explicações sobre o quanto “O Retrato de Dorian Gray” é uma crítica contundente à cultura vitoriana. O que me interessa é abordar o processo mágico descrito no livro e aproveita-lo para expor um conceito científico importante.

Conforme nos ensina a segunda lei da termodinâmica, a entropia total (ou seja: o caos, a degeneração) de um sistema sempre aumenta. Em decorrência disto, não é de estranhar que – cedo ou tarde – todas as coisas se deteriorem. Desde uma estrela até um camundongo, todas as coisas estão fadadas a envelhecer e morrer. Você pode, é claro, retardar o processo degenerativo das coisas, seja cuidando de si mesmo para aumentar o tempo de vida, seja preservando um alimento na geladeira que, fora dela, apodreceria mais rápido.

Só que sempre que você diminui a entropia num sistema, você o aumenta em outro. Tomemos o caso da geladeira: ela realmente desacelera a velocidade com a qual os alimentos estragam. Um pedaço de carne que não duraria mais do que 24 horas em cima da pia, pode se preservar por quase um ano no congelador. A geladeira usa o resfriamento como um retardador da entropia. Entretanto, – e preste atenção, pois isto é importante – o resfriamento só ocorre porque a geladeira tem um motor. Este motor consome energia e se aquece. Quer dizer: para diminuir a entropia do lado de dentro, o sistema “geladeira” aumenta a entropia do lado de fora. A energia necessária vem de algum lugar, esgotando paulatinamente esta fonte.

Já li artigos nos quais os autores defendem ser a vida uma negação da entropia. Ou, pelo menos, suspeitam que a vida desafia a segunda lei da termodinâmica. Um físico alemão chamado Helmholtz chegou a falar em negentropia (entropia negativa) para se referir à vida. O próprio Schrodinger observou que os processos hereditários fazem com quem a ordem brote da ordem – afinal, um organismo vivo gera outro, evitando a decomposição. Ele chegou a declarar que a segunda lei da termodinâmica talvez não se aplicasse à matéria viva.

Mas há um equívoco aqui, provavelmente derivado do apego à ordem demonstrada pelos sistemas vivos. Só que esta “ordem” é temporária, e só existe se aumentar a entropia em outro lugar. De fato, sistemas vivos retiram ordem a partir do caos e parecem remar contra a maré.  Mas para qualquer coisa estar viva, ela precisa consumir outras coisas. Consumimos alimentos, água, luz solar. Dando-nos vida, o Sol morre um pouquinho a cada segundo. Em palavras simples: o aumento da ordem num ponto demanda degeneração em outro. Há sempre um preço a se pagar. Organismos vivos existem em perfeito acordo com a segunda lei da termodinâmica. Nada a contradiz. Como bem dizia o astrônomo britânico Arthur Eddington, “se você descobrir que a sua teoria contraria a segunda lei da termodinâmica, não posso lhe dar esperanças; sua teoria afundará em humilhação profunda“.

Notem que, em ficções de natureza mágica, a segunda lei aparentemente é deixada de lado. Se Harry Potter é capaz de fazer um objeto surgir do nada, ele está desafiando a termodinâmica. Em tese, este objeto materializado só seria possível se outro sistema fosse consumido. Mas, bem, não acho que a ficção tenha a obrigação de ser “científica” (mesmo quando se trata de ficção científica, o que não é o caso de “Harry Potter”).

Ainda que tal obrigatoriedade inexista, em “O Retrato de Dorian Gray” a segunda lei da termodinâmica se faz presente, mesmo na magia, o que é bem curioso! Quando o personagem principal, Dorian, deseja nunca mais envelhecer e imagina como seria bom se seu retrato envelhecesse por ele, um mecanismo mágico é disparado e o desejo é atendido. Imediatamente, Dorian Gray cessa de envelhecer. Mas a imagem em seu retrato, em compensação, acumula decadência a cada dia.

A segunda lei da termodinâmica não se limita ao retrato. Dorian Gray é um rapaz muito bem sucedido e feliz, mas a manutenção desta felicidade tem um efeito colateral: aumenta a desgraça de quem está ao seu redor. É como se, para ter mais sorte, Dorian consumisse a alegria alheia. Deste modo, o “sistema perfeitamente ordenado” chamado “Dorian Gray” só o é porque aumenta a degeneração em outros sistemas: o retrato e a vida dos outros. Sei que há muitas lições morais nesta obra de Wilde, mas a que eu mais gosto é esta: é impossível manter a ordenação de um sistema sem aumentar a degradação em outro lugar. 

Ou, melhor dizendo, “sorte minha, azar o seu”.

3 pensamentos sobre “O retrato de Dorian Gray e a segunda lei da termodinâmica

  1. Boa ponte que tu fizestes entre ficção e princípio físico, Alexey. A inevitabilidade do crescimento da entropia estaria ligado basicamente ao grau de isolamento dos sistemas. O “jogo-de-soma-zero” do DG não era aparente até que se considerasse ele mesmo e o retrato como parte do mesmo sistema, mas também com a partição da sorte com o entorno. Neste mês tive parte numa discussão (dentro de uma lista nacional) sobre justamente como levar este princípio em consideração no aspecto ficcional das viagens no tempo. Estavam sendo discutidos até certos aspectos jurídicos hipotéticos quando meu irmão brandiu o princípio citado como uma prova da impossbilidade de se criar ciclos fechados no espaço-tempo por gerarem diminuição artificial de entropia antes mesmo da menção à inevitável realimentação positiva e seus infinitos de energia resultantes (esta última da forma como eu interpreto, e não como mero absurdo de cálculo, ou até como asneira da forma como foi lá colocado). Um dos membros da lista enfatizou que este princípio é universalmente válido, mas só a partir do ponto em que considerermos os sistemas suficientemente “fechados”,dando um contra-exemplo concreto na forma de “folding” de proteínas, se bem me lembro. No livro “O Universo em Uma Casca de Noz” o Stephen Hawking já alude ao problema da realimentação de energia em linhas fechadas de tempo/espaço como parte de uma conjectura de “censura cósmica”, que impediria praticamente as viagens no tempo (já que só pela relatividade pura estas ainda seriam permiitidas).

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