Milagres possíveis

Dentre os grandes lançamentos do final de 2012, “O Impossível” (The Impossible, de Bayona & Sanches, com atuação de Ewan McGregor e da magistral Naomi Watts) tem o diferencial de ser baseado em fatos reais – no caso, o tsunami ocorrido em 2004 no sul asiático. Tantas vidas foram afetadas por este desastre, que suas histórias viabilizariam centenas de filmes em torno do mesmo evento. Entretanto, pouquíssimas histórias poderiam gerar a exclamação de espanto “isto é impossível!”.

Não creio que meus comentários a seguir terão a dimensão de um spoiler, estragando as surpresas da história. Não é difícil imaginar o que acontece, se você considerar o seguinte: diante de um tsunami avassalador, que coisas poderiam ocorrer para uma história ser classificada como “impossível”?

Falemos, então, de outro termo muito utilizado em torno de eventos como os ocorridos neste filme. Este termo é “milagre”. Sempre que algo imensamente improvável acontece, a maioria de nós tem a inclinação de usar este termo para definir o evento. Milagre. Para alguns, a prova de que uma entidade benfazeja governa o Universo.

Lembro-me que, por ocasião do divertidíssimo “Quem Quer Ser um Milionário?” (Slumdog Millionaire, de Danny Boyle, 2008), uma amiga fez uma resenha sobre o filme. Em seu texto, ela dizia que a moral desta história era a seguinte: quem tem fé e acredita, será sempre beneficiado. Deus existe, é bom, e faz milagres.

Temos, aqui, pelo menos dois problemas. Em primeiro lugar, na prática, nem sempre “ter fé” e “acreditar” trará os resultados esperados. Muitas vezes temos o nosso desejo intenso simplesmente negado. Você descobre que tem câncer, é muito religioso, reza, faz novena… e morre. Você é uma pessoa boa, se sente merecedora, faz o bem, ajuda os outros e, mesmo assim, sua casa é arrastada por uma enchente. A vida pode ser mesmo muito implacável, apesar de nosso otimismo. Evidentemente, as histórias que vendem são aquelas nas quais o “acreditar” foi coroado com êxito. Sempre é possível contra-argumentar, dizendo que se algo não deu certo é porque a pessoa “não acreditou o suficiente”. Culpar o indivíduo é mais confortável do que se ver diante da possibilidade angustiante de que o Universo pouco se lixa pra você. E que não, não basta “acreditar muito” ou “ter fé”: se algo tiver que ocorrer, ocorrerá. Nossa mente não é onipotente.

Em segundo lugar, se utilizo os eventos de “Quem Quer Ser um Milionário” para admitir a intervenção divina, então devo admitir que este Deus está mais para Zeus do que para um Deus Cristão que ama a todos os seus filhos indistintamente. Sim, porque Zeus tinha preferidos, tinha eleitos. Amava uns, odiava outros, mal se apercebia da existência de tantos. É contraditório que um Deus que ame a todos os seus filhos indistintamente conceda tantos benefícios a um só indivíduo em detrimento de todos os outros. “Quem Quer Ser um Milionário” não é uma história da vitória da fé, nem da intervenção divina. É a história de uma série de acasos felizes extremamente improváveis, que se sucedem em torno de uma mesma pessoa. A isso, chamamos “sorte”. Note: são eventos muito improváveis, mas não são impossíveis. É altamente improvável que você acerte na mega sena. Impossível, não é. Mas e se você ganhar, você realmente acha que ganhou porque Deus te prefere? Eu sei o quanto esta perspectiva pode ser sedutora. Eu já me vi em situações (mais de duas), nas quais uma sucessão de eventos culminou no meu benefício direto. Algo em nossa natureza nos inclina a achar que, por conta destes acontecimentos improváveis, algo ou alguém nos prefere. Às vezes eu me pego achando isso. Tive golpes de sorte muito sérios na vida, onde o improvável se tornou real, e tudo foi suficientemente sedutor para eu poder achar que uma divindade entortou o Universo para me beneficiar. Todavia, não sou egocêntrico. Não acho que meus golpes de sorte sejam teologicamente satisfatórios, pois eu seilembro que bilhões de outras pessoas não têm a sorte sequer de ter o que comer.

Se há a probabilidade de algo muito bom ou muito ruim acontecer, ainda que esta probabilidade seja muito pequena, em algum momento ela irá ocorrer. Não irá ocorrer com todas as pessoas, é claro. Mas alguém, em algum momento na história e em algum lugar no mundo, vivenciará situações do tipo:

– Estar andando na rua e morrer porque a marquise de um salão de beleza desabou subitamente na cabeça da pessoa. Isto já aconteceu. Com o filho de uma amiga.

– Achar no chão um bilhete de loteria, e ele estar premiado. Em seguida, na mesma semana, ganhar dois carros em diferentes sorteios. Isto já aconteceu. Vi na TV.

– Estar à beira da morte e, repentinamente, o corpo se recuperar. Isto já aconteceu. Não é muito raro, a propósito.

– Participar de um programa de perguntas e respostas (estilo “Quem Quer Ser um Milionário”) e se ver diante de questões bizarras, mas – por coincidência, e não por estudar aquilo – lembrar das respostas. Isto já aconteceu. Comigo. Uma mescla de ótima memória e acaso.

– Estar dirigindo calmamente e um cavalo se jogar em cima do seu carro, numa grande metrópole (lugar onde geralmente não se vêem cavalos andando por aí), matando-o imediatamente. Isto já aconteceu. Com um amigo.

– Um tsunami violentíssimo golpear cinco pessoas de uma mesma família frontalmente, separando-as. E, mesmo assim… Bem, assistam ao filme. Isto aconteceu. E, enquanto você se emociona com “O Impossível”, lembre-se do ocorrido com milhares de outras pessoas: com elas, ocorreu o esperado numa situação dessas.

Evidentemente, “O Impossível” não é impossível. É apenas improvável. Curiosamente, costumamos chamar de “milagres” as coisas improváveis. O que não condiz com a verdade evocada por este termo. O milagre, stricto sensu, é a total contrariedade das leis da natureza. Algo como um boi voar. E, mesmo assim,   pode acontecer de o “milagre” ser apenas um evento natural, muito raro, por nós desconhecido (eclipses, por exemplo, já foram considerados milagres). Porém, algo positivo e improvável, sobretudo se for muito improvável, não é um milagre. É apenas algo bom, improvável, que nos coloca não diante da Vastidão da Justiça Divina. Ao contrário, nos coloca diante da indiferença do Universo. O bem, suposto impossível, ao ocorrer com uns e outros, ao se definir como tão raro que beira o bizarro, não me faz pensar na presença de Deus. Me faz pensar em sua profunda ausência e nas ironias do acaso.

Parece triste a minha perspectiva? Não, se você vir as coisas por outra ótica e prestar bastante atenção ao que ocorre em “O Impossível”, envolvendo a criança chamada Daniel. Lembre disso, quando assistir ao filme:

Na falta de entidades mágicas e divindades benfazejas, temos apenas uns aos outros para nos ajudar. E quando nos dispomos a isso, a esta solidariedade, o improvável se torna real. Curvamos as probabilidades para nosso próprio favorecimento e dos outros. Saber disso não me faz temer o acaso, ou a indiferença do Universo. Saber disso me faz entender que “Deus” é exatamente a diferença – na hora fatal – entre escolher ajudar Daniel ou ignorar seu chamado.

Um pensamento sobre “Milagres possíveis

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