Entrelaçamento Quântico e Telepatia

A Editora Aleph é uma das minhas favoritas. Responsável pela publicação em língua portuguesa de alguns dos mais magníficos títulos de ficção científica, a Aleph nos brinda com clássicos de Clarke, Asimov, K. Dick, dentre outros. Entretanto, se por um lado a Aleph publica o que há de melhor na ficção científica, publica também o que há de mais duvidoso na ciência. Não sugiro, de forma alguma, uma espécie de censura ou veto a livros carregados de ciência duvidosa. Recomendo, isso sim, muito crivo crítico no que concerne a obras de Amit Goswami e suas obras de Física Quântica.

Se com Clarke e Asimov eu vou ao paraíso e por lá fico enquanto os leio, Goswami me cansa um pouco. Sim, eu sei, Goswami é físico. Sim, ele tem doutorado em Física Nuclear. Não, os livros dele não são sobre Física Quântica. Li todos, e não os achei ruins. São bem escritos. Só não são livros de Física Quântica ou, pelo menos, não são livros nos quais a teoria exposta pode ser classificada como tendo um mínimo de consenso científico. Afinal, ciência não se faz com um homem sozinho, e não, não me venham com imagens românticas de um gênio solitário lutando contra a ignorância das massas. Os escritos de Goswami são obras de pensamento oriental, nas quais os tradicionais termos esotéricos foram substituídos por termos científicos para dar uma envernizada e envolver as pessoas. O procedimento não é exclusividade de Goswami, apesar de ele ser o mais veemente divulgador de uma Física Quântica bastante duvidosa que, ao meu ver, nada mais é do que uma forma de tornar o discurso do misticismo oriental (que é bonito em sua origem) mais “modernoso”. Sendo justo, vale dizer que alguns notáveis nomes da Física demonstram pelo menos alguma simpatia pelas interpretações de Goswami. Alguma simpatia, notem a ressalva. Não significa que “concordem”. Cito alguns que têm até Nobel em Física: Eugene Wigner, von Neumann, Wheeler e Brian Josephson.

Física quântica é mesmo um assunto fascinante, e não há um consenso absoluto sobre o que sua teoria de fato significa. A corrente de Goswami se traduz na teoria mais dramática. Nesta interpretação, a consciência cria a realidade. Não existe “realidade” independentemente do humano. Claro, é possível uma interpretação psicológica desta afirmação: os fatos não são apenas os fatos, mas significam coisas distantas para cada ser. Mas não é apenas isto que Goswami nos diz. Ele diz que nós criamos, sim, o mundo ao nosso redor, inteirinho ele. Os fatos objetivos dependem de nossa consciência. Este tipo de afirmação é extremamente tentadora e vende livros a granel. As pessoas gostam de sentir que são capazes de transformar o entorno apenas com suas mentes. Livros de autoajuda (que ajudam mais os autores, tornando-os ricos, do que os leitores) costumam explorar esta hipótese. Você pode curar o câncer com a sua mente. Você pode ser imortal. Você só não levita porque sua consciência está aprisionada a antigos padrões. Tudo muito bonitinho. E muito duvidoso.

Quando repito o adjetivo “duvidoso”, o faço de propósito. Não vou cair aqui no cientificismo tosco de classificar Goswami como um pseudocientista, ou como um divulgador de pseudociência. Acho que vale deixar claro que a interpretação dada por Goswami à física quântica é, dentre todas, a mais questionável. Há outras, muito mais aceitáveis e demonstráveis: a Interpretação de Copenhague, a Lógica Quântica, a Decoerência, o Neo-Realismo. Prometo criar um post apenas para explicar a diferença entre cada “visão” da teoria quântica. Há algumas teorias bem inusitadas, como a da Pluralidade dos Mundos – como o nome informa, sustenta-se que há realidades paralelas e incontáveis novos universos são criados a todo momento. Em sua forma forte, tal teoria implica no seguinte: você pensou em estudar Medicina, mas se decidiu por Astronomia? Deve haver um Universo Paralelo no qual você não é astrônomo, e sim médico. Ficou na dúvida se namoraria Maria ou Joana? Há um Universo para cada namoro. Fascinante, não? Dá um excelente gancho para muita ficção científica de qualidade. Como “ciência”, é bem difícil de demonstrar uma coisa deste tipo.

A teoria de Goswami consegue ser mais “mágica” que a Pluralidade dos Mundos e é, também, a mais antropocêntrica. O homem é colocado como uma espécie de centro criador, de onde a realidade emana. Trata-se de uma afirmação e tanto. Rechaçá-la e dizê-la “impossível” é bobagem. Dizer que ela “é certa” apenas porque o teorizador tem doutorado, é ingenuidade. Por isso, insisto: trata-se de uma tese bem duvidosa.

Mas se algo é duvidoso, não significa que não deva ser explorado, estudado, investigado. Detesto a imposição de estudar apenas coisas que sejam imediatamente “úteis”. A curiosidade, se legítima e minimamente bem sustentada, pode e deve ser estimulada. Dito de forma bem direta: se a pessoa quer pesquisar telepatia, telecinésia, poder da mente sobre a matéria, por que não? Deveria haver verba para tais pesquisas? Eu digo que sim (claro, com limites). E esta é a implicação mínima das teorias de Goswami: a mente interfere sobre a matéria.

Pesquisas a este respeito existem desde a época da guerra fria. Nem os EUA nem a URSS eram burros de não investigar esta possibilidade. Corriam sério risco de ficar para trás numa eventual guerra paranormal, na qual poderosos telepatas-espiões poderiam saber o que se passa em esconderijos preciosos. E se alguém conseguisse matar com a mente? Claro, naquela época não se associavam as pesquisas parapsicológicas com a teoria quântica, embora a teoria quântica seja bem mais velha do que as investigações paranormais em contextos militares.

Um dos grandes pesquisadores de fenômenos paranormais foi o mestre em Engenharia Elétrica e doutor em Psicologia, Dean Radin. Ele chegou a participar de um programa secreto que investigava fenômenos paranormais para o governo dos Estados Unidos. Ele é o autor de “Mentes Interligadas” (Entangled Minds, traduzido para o português pela Editora Aleph). Terminei de ler o livro, pois buscava aprimorar alguns subsídios teóricos para os fenômenos telepáticos presentes em minha própria série de ficção, “Crônicas da Superterra”. Eu já havia pensado em traçar um paralelo entre telepatia e o fenômeno do entrelaçamento quântico, e fiquei bastante entusiasmado ao descobrir que Radin já havia estabelecido uma hipótese sobre tal relação, e resolvi lê-lo.

Sobre o livro, digo que constitui um apanhado histórico muito bom sobre parapsicologia. Radin entende muito do assunto, e nos apresenta ao mundo paralelo dentro de nosso próprio mundo. Grupos que pesquisam telepatia e telecinésia a partir de critérios severamente científicos existem há décadas. Radin conta, inclusive, como a busca incessante pela prova da existência da telepatia conduziu à invenção do eletroencefalograma – antigamente chamado de “ritmos de Berger”, em homenagem a um médico psiquiatra que, após uma suposta experiência telepática, ficou obcecado com o assunto. Por essas e outras sou favorável a, sim, “gastar tempo” pesquisando o que você quiser. Mesmo que a coisa se revele uma “furada”, benefícios colaterais surgem. Sim, eu sei que alguém em algum momento teria inventado o eletroencefalograma. Mas acho interessante que tal instrumento tenha surgido porque um cientista se interessou pela telepatia.

Entretanto, apesar de o livro de Radin ser ótimo para entender a história da pesquisa científica em torno do paranormal, adianto que aqueles que acreditam em parapsicologia ficarão frustrados ao descobrir que… Sim, há indícios de fenômenos mentais telepáticos e de influência da mente sobre a matéria. Mas os indícios são muito fracos quando submetidos ao escrutínio científico. Há circunstâncias poderosas relatadas por algumas pessoas, mas que podem ser mera coincidência, mesmo quando muito bizarras. Eu, por exemplo, já tirei 8,8 numa prova de Química, com 40 questões divididas em possibilidades a, b, c, d, e, sem ler sequer as perguntas. Eu não havia estudado, não sabia nada, e estava desesperado. Então, saí marcando tudo a esmo, chutando oras a, oras b, c, d, e, e acertei 88% da prova. Só que isto pode ter sido apenas uma bizarríssima coincidência. É preciso reproduzir o fenômeno para garanti-lo genuíno.

E a tentativa de reproduzir a telepatia em laboratório, com pessoas supostamente bem dotadas neste quesito, ocorreu ao longo do século XX. Querem saber o resultado? Em síntese: experimentos em torno da telepatia demonstram, de fato, resultados um pouco acima do que poderia ser classificado como “mero acaso”. E o problema é exatamente este: os resultados são apenas um pouco acima do que poderia ser considerado mera coincidência. Se o acaso se localizava na esfera dos 20%, os supostos telepatas obtiam entre 30% e 35% sob situações controladas. Em alguns casos, o resultado beirava bizarros 45% de acertos. Alto, não? Mas eis que um problema inesperado surgiu…

Há pelo menos uma coisa que me pareceu muito interessante e digna de nota: conforme demonstra Radin, experimentos de telepatia entre duas pessoas (controlados, sem risco de “leitura fria” ou trapaça) costumam ser muito bem sucedidos no começo. Na medida em que o tempo passa, os sucessos decaem até os resultados serem classificados como simples acaso. O que era 35% no primeiro mês vira 20% ao longo de um ano. O excepcional se converte em mero acaso. Radin teoriza que a mente se entedia, ou mesmo se defende, como se a pessoa desenvolvesse “anticorpos psíquicos” contra a constante tentativa de intrusão em sua mente. Bem, eu acho no mínimo curioso que em todos os experimentos parapsicológicos os primeiros resultados sejam sempre tão acima do acaso e com o tempo decaiam. Há algo aí que talvez mereça um pouco mais de atenção. Acho que Radin consegue justificar, sim, a continuidade de experimentos controlados em torno da telepatia.

Outro ponto curioso diz respeito à constatação de que o percentual de acertos em experimentos telepáticos diminuia conforme a distância. Seria este outro indício de que o fenômeno é físico e está submetido a limites naturais, como o da velocidade da luz?

O grande mérito do livro é que ele é um dos únicos publicados pela Aleph que fala realmente sobre Física Quântica, explicando seus fundamentos, suas distintas interpretações. O livro tem, de fato, uma aposta ousada: Radin defende que o fenômeno de entrelaçamento quântico – passível de ocorrer entre duas partículas subatômicas diferentes e distantes, que se comportam como se fossem uma só – pode ser aplicado em níveis macro. A telepatia, para Radin, é um entrelaçamento quântico temporário entre dois seres humanos. De fato, experimentos recentes demonstram a possibilidade de entrelaçar objetos na escala macro. Isto foi feito com diamantes, segundo estudos de 2011:

http://hypescience.com/diamantes-sao-entrelacados-em-processo-quantico/

Claro, o que Radin afirma está apenas na escala das hipóteses. Eu trabalho com esta hipótese, tornando-a real num contexto ficcional, apostando numa afirmação de Radin: se a telepatia existe, ela tem mais a ver com a Física do que com a Psicologia. Ela seria um fenômeno físico desconhecido. A diferença entre mim e Radin é que ele aposta nesta possibilidade como um dado real. Eu não nego tal possibilidade, apenas não a classifico como “segura e certa” só porque a uso na construção de uma história.

Radin tem, portanto, este mérito: a despeito de apostar em teorias ousadas, em seu livro não há tolices sobre Física Quântica. Ele a explica razoavelmente bem, fazendo-se entender principalmente para quem não entende nada do assunto. E me parece ter crivo crítico suficiente para, mesmo apostando alto em fenômenos paranormais, enfatizar que o discurso de Goswami é – sendo simpático – “suspeito”. Radin tem o mérito de sempre pedir cautela, enfatizando os perigos do pensamento desejoso e dos “saltos ornamentais” da mente crédula: mesmo que a telepatia exista, isso não significa que Elvis vive no Havaí e que o planeta Vênus é habitado por Arcanjos. Afinal, mais que telepática, a mente humana é de uma criatividade sem limites.

Um pensamento sobre “Entrelaçamento Quântico e Telepatia

  1. “Entanglend minds” está na minha lista de livros a médio prazo. De fato, seu breve comentário me fez subir a prioridade da leitura. Como um cético “chato” eu já li há um tempo atrás um review do livro (http://www.skepdic.com/refuge/entangledreview.html). É uma postura honesta procurar a fonte original.

    Em uma de minhas aventuras místicas-literárias dei chance ao livro “Afinal, quem somos” (Moacir Araujo Lima – aparentemente um seguidor apaixonado de Goswami). E este é um exemplar da falta de competência, ou desonestidade, em transmitir de maneira equivocada os experimentos do mundo nano. Afinal, esperança e argumentos emotivos sempre venderam muito quando levam o carimbo da suposta “prova científica” (termo que inclusive é inadequado).

    No mais, excelente post!

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