A Navalha de Pi

No século XIV, existiu um filósofo e frade franciscano chamado William de Ockham, também conhecido como Guilherme de Occam. É de sua autoria a obra Ordinatio, na qual ele apresenta uma das máximas que o tornou famoso e citado até os dias de hoje. Escreveu Ockham:

 Pluralitas non est ponenda sine neccesitate.

“Pluralidades não devem ser postas sem necessidade”.  Este o princípio fundamental da Navalha de Ockham, um conceito bastante razoável a ser aplicado na prática. Este conceito defende que, diante de duas ou mais explicações possíveis, é mais sensato optar pela explicação mais simples.

Algumas más interpretações em relação à Navalha de Ockham são por demais comuns. É importante ressaltar, por exemplo, que Ockham não diz que uma teoria extraordinária jamais será mais verdadeira do que uma teoria mais simples. O que ele diz, isso sim, é que normalmente a explicação mais simples ganha da extraordinária. Um exemplo: você vê uma luz estranha pairando no céu. Você não tem como saber o que é esta luz. Há várias explicações para ela:

  1. É uma nave proveniente de outro planeta.
  2. É um balão meteorológico.
  3. É um satélite.

Dentre estas três explicações, qual delas é mais extraordinária e seria descartada pela Navalha de Ockham? Evidentemente, a primeira. Descartar a primeira explicação não significa negar a possibilidade de ser uma nave. Possível é, só não é provável, nem sensato apostar todas as fichas na explicação mais extraordinária.

Albert Einstein disse algo parecido: “teorias devem ser tão simples quanto possível, mas nem sempre devemos escolher as mais simples”.

O mais comum, contudo, é que as pessoas usem outro tipo de “navalha” para cortar as possibilidades explicativas, abraçando o que consideram “mais verdadeiro”. E o “mais verdadeiro” invariavelmente é o mais absurdo. Elas usam a mesma navalha defendida no filme Life of Pi (“As Aventuras de Pi”). Qual o critério desta navalha? Acredite na hipótese que você achar mais bonita.

O mote do filme é “acredite no extraordinário”, e conta a história de um garoto que naufraga com um tigre. Ambos partilham, aos trancos, o mesmo bote. O garoto é encontrado, e tem que contar sua incrível história. Após constatar que ninguém acreditava nele, ele então inventa uma história mais aceitável e plausível. Na verdade, a história “extraordinária” de Pi não é tão absurda assim, ainda que incomum. Se um navio carregando um zoológico naufragasse e um garoto e um tigre terminassem parando no mesmo bote, não haveria nada de tão absurdo. Os malabarismos que o garoto faz para sobreviver não são improváveis. A única coisa realmente improvável no filme inteiro é a ilha onde ele e o tigre passam um dia, e podemos ponderar que ela talvez nem exista, e tenha sido fruto dos delírios de um garoto desidratado. Apliquemos aqui a Navalha de Ockham: o que é mais provável? Que exista uma ilha em forma de ser humano, totalmente desconhecida, que durante o dia ofereça o paraíso e à noite se torne venenosa e carnívora OU que o menino se enganou/delirou? Qual é a explicação mais simples?

O filme, é claro, não “vende” a ideia de que precisamos acreditar em coisas absurdas. O mote publicitário, todavia, nos conclama: “Acredite no extraordinário”. Mais que isso, no último diálogo entre Pi e o escritor, a conclusão é: dentre duas histórias, a mais apreciável é a mais verdadeira. O filme é lindo, mas a Navalha de Pi é a apologia do autoengano. Por que a história mais bonita seria a mais verdadeira? Uma forma de espantar o tédio, talvez? Eu gosto de histórias bonitas, adoro ficção. Mas não considero as ficções “mais verdadeiras” por serem mais belas que a realidade.

Isso me faz lembrar Sagan, no excelente “O Mundo Assombrado pelos Demônios”. No livro, o astrônomo pondera: por que tanta gente se inclina com tanta facilidade a acreditar em coisas tão fantásticas quanto improváveis? A leitura que ele faz desta inclinação é positiva: esta inclinação deriva de uma curiosidade científica, um impulso investigativo. Sem recursos ou devida orientação, esta curiosidade investigativa se inclina para teorias da conspiração, fenômenos estranhos etc. E o problema nem está no interesse por coisas estranhas, mas na falta da cautela necessária que possibilitaria a aplicação da Navalha de Ockham. Normalmente, as pessoas passam muito rapidamente para as conclusões que elas acham mais bonitas. Elas têm certeza demais das coisas com muita velocidade. Poucos são os que pensam: “existe outra explicação para isso?” ou “Há alguma explicação mais razoável para isso?”.

Sagan fala também do tédio. Entediados com a vida ordinária, os seres humanos se inclinam a crer em coisas extraordinárias como uma forma de contrabalançar a rotina chata. Seu trabalho é um porre, sua vida se repete do mesmo modo dia após dia? Válvula de escape perfeita: passar as horas extras lendo sobre:

  1. Dinossauros escondidos na Amazônia.
  2. Acordos secretos entre alienígenas e os governos da Terra.
  3. Poderes paranormais usados pela CIA.
  4. Exames que comprovam que o sangue de Obama não é humano.

Se você procurar por cada um dos quatro assuntos acima elencados, você encontrará (sem muito esforço) várias notícias defendendo a veracidade de tudo isso, com muita veemência. É muito comum, até, encontrarmos pessoas que são céticos-às-avessas. Eles duvidam de tudo o que é senso comum com muita força, mas acreditam intensamente em qualquer coisa que seja extraordinária. Por exemplo: eu conheço gente que duvida que o homem já pisou na Lua. Não são dúvidas leves, e sim dúvidas sérias (em geral apontam diversos indícios da “fraude”, sem se tocar que todos estes supostos indícios derivam de um mau entendimento de quem aponta). Em compensação, não hesitam em afirmar a existência de E.T.s que nos visitam considerando, por exemplo, o depoimento de uma mulher que diz ter sido abduzida e estuprada por um alienígena “grey” (50 Tons de Cinza, versão cósmica). Diante de quatro possibilidades (1. A mulher mente; 2. A mulher sofreu um estupro real, entrou em choque e está delirando; 3. A mulher tem problemas psicológicos; 4. A mulher foi violentada por um alienígena), escolhem sem pestanejar a alternativa mais extraordinária. É claro que ela foi violentada por um E.T.!

A proposta de Sagan é linda: acredite no ordinário. A vida – com todos os seus mistérios e suas maravilhas – é muito mais interessante do que fantasmas.

 

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