O estudo da questão OVNI na Universidade

No último dia 23 de maio, o Laboratório de Psicologia Anomalística da Universidade de São Paulo viabilizou o evento “Alienígenas na Universidade”. Aberto ao público, o encontro teve por objetivo apresentar estudos acadêmicos cujos focos principais envolvessem o tema da vida fora da Terra.

Um evento deste tipo costuma atrair pelo menos dois tipos de críticas, todas infundadas. Da parte dos ufólogos, há quem critique que o evento não convidou nenhum ufólogo, e apenas acadêmicos. Bem, sobre isso há três coisas a dizer: 1. o evento era sobre pesquisas acadêmicas, e tinha por objetivo apresentar trabalhos que estão sendo desenvolvidos como dissertações de mestrado ou teses de doutorado; 2. segundo os organizadores, ufólogos famosos foram convidados e não se manifestaram; 3. nada impede que um próximo evento reúna investigadores acadêmicos e investigadores cujo trabalho não esteja atrelado à Academia. Há também a crítica de alguns acadêmicos: estudar este assunto seria uma tolice. Particularmente, acho esta crítica pior do que a feita por ufólogos, por se basear em puro preconceito.

Como o evento foi muito enriquecedor, discorrer sobre tudo num só post seria escrever algo imenso. Irei, portanto, dividir o que tenho a dizer em diversos posts, começando agora com a questão das perspectivas. Há diversos olhares acadêmicos lançados sobre a “problemática alien”. Eis alguns dos que foram expostos no evento:

A perspectiva antropológica busca investigar quais processos são desencadeados pelos supostos contatos ufológicos de quaisquer graus. Alegações, sobretudo coletivas, de avistamento de objetos voadores não-identificados, abduções ou mesmo ataques, movimentam e desencadeiam eventos em nossa sociedade. Exemplo: a pressão em torno dos militares brasileiros, baseada na liberdade de informação, em prol da abertura dos arquivos envolvendo OVNIs.

Durante o evento, tivemos a participação de Rafael Antunes, do departamento de Antropologia da UNB, apresentando o trabalho “Avistamentos (chupachupa e matintaspereiras na Amazônia)”. Sua investigação gira em torno de um fenômeno coletivo: habitantes de vilas ribeirinhas da Amazônia, mais especificamente da região de Colares, no Pará, que dizem ter sido atacados por uma luz que as deixou dormentes e, então, algo não-identificado de formato humano e estatura média lhes sugava o sangue. Se você pensou: “coisa luminosa que chupa o sangue? Deve ser Edward, o vampiro de Crepúsculo”, então somos dois. Piadas à parte, o problema foi tão grave que mobilizou militares, na famosa “Operação Prato”, nos anos de 1977 e 1978. Os habitantes das vilas não dormiam, e montavam vigílias a noite toda, com medo dos repetidos ataques. Diversos habitantes apresentaram queimaduras de diversos graus e, segundo eles, a queimadura se devia a uma forte luz enviada por “coisas luminosas no céu”. O posto médico de Colares registrou diversos atendimentos a pessoas queimadas, que alegavam sempre o mesmo: haviam sido atacadas por luzes no céu.

Note que os habitantes das vilas ribeirinhas nunca argumentaram que estavam sendo atacados por alienígenas sugadores de sangue. Para eles, o agente era o diabo.

Nos anos 70, o capitão da aeronáutica Uyrangê Bolívar de Hollanda Lima investigou – junto a dezenas de militares – o fenômeno. Durante dois meses, nada testemunharam de estranho. Com o tempo, contudo, os militares dizem ter tido a oportunidade de testemunhar diversas luzes inexplicáveis no céu de Colares, registrando tudo em filmes e fotografias que estariam de posse da Força Aérea Brasileira. Hollanda Lima alega também ter avistado – junto a dois agentes do Serviço Nacional de Informação – naves imensas que, conforme suas próprias palavras, tinham o tamanho de prédios de trinta andares e emitiam luzes. Tudo isso foi assumido em entrevista dada por Hollanda Lima aos ufólogos Marco Antônio Petit e Ademar Gevaerd. Dois meses depois, Hollanda Lima foi encontrado morto em sua casa na região dos Lagos, no Rio de Janeiro, e até hoje se questiona se a causa da morte foi suicídio (esta é a alegação oficial) ou “queima de arquivo”.

Todos estes acontecimentos servem de combustível para uma das mais interessantes teorias da conspiração envolvendo o fenômeno no Brasil. Há uma multiplicidade de perspectivas para este fenômeno e, para cada perspectiva, há bons argumentos contra e bons argumentos favoráveis. Note que “argumento” não constitui “prova”. Argumento é argumento.

Há os veementes defensores de que tudo foi uma intervenção alien. Argumento contra: estes defensores parecem esquecer que “objeto voador não-identificado”, como o nome diz, é “não-identificado”. Não há provas de que sejam naves alienígenas. Poderiam ser, por exemplo, como argumentam alguns, “experimentos ocultos que testavam novas armas”. Contra o argumento ufológico, há a questão: qual o sentido de uma nave espacial emitir luzes? Aviões emitem luzes para sinalizar uns para os outros. Uma nave alienígena que emita luzes, quer ser identificada. Ora, se ela quer ser identificada, por que então os aliens não se identificam? Mesmo no que tange às teorias de um “experimento militar oculto”, a questão se mantém: por que uma operação tão secreta emitiria luzes e chamaria a atenção sobre si? Argumento favorável: diversidade de testemunhas, incluindo militares, avistando objetos imensos e seres de aspecto antropomórfico que saíam flutuando de tais estruturas.

Há os que defendem a tese da histeria coletiva, apelando até mesmo para julgamentos psicosociais: os habitantes de Colares eram predominantemente ignorantes, e muitos tinham problemas com alcoolismo. Argumento contra: alguma coisa de fato aconteceu, dadas as evidências físicas (queimaduras, marcas de perfuração e evidências de absorção de sangue). Além disso, taxar os ribeirinhos de “ignorantes e alcoólatras” parece uma tentativa de desqualificar a testemunha, ignorando as evidências físicas. E isso não muda o fato de que os militares avistaram as luzes e presenciaram estruturas flutuantes imensas. Argumento favorável: na histeria coletiva, não é estranho que as pessoas se flagelem. E histeria coletiva é algo muito poderoso: pode contaminar até mesmo militares treinados.

Temos aqui uma razoável matéria da Istoé sobre este assunto:

http://www.istoe.com.br/reportagens/11862_A+HISTORIA+OFICIAL+DOS+OVNIS+NO+BRASIL

De uma forma ou de outra, a perspectiva antropológica tem por objetivo responder não se o fenômeno era ou não era uma intervenção alienígena, e sim abordar todos os eventos desencadeados por este suposto fenômeno. Questionado por uma participante do evento, Rafael Antunes demonstrou bem como procede um antropólogo. Ele disse que leva a sério os relatos das testemunhas. A participante queria mais, queria saber se ele acredita ou não acredita que se tratava de uma intervenção alien. Rafael insistiu: “eu levo a sério os relatos”. Esta resposta mostra o bom procedimento do antropólogo: o que ele acredita não importa. Ele não está ali para fazer apologia de sua crença pessoal, nem para responder “o que” era o fenômeno na verdade, pois não é esta a pergunta da Antropologia.

Cabe aqui um aparte: notei a irritação, em alguns (poucos) participantes, diante da posição cautelosa dos pesquisadores. A impressão que me dava é que, para alguns, tudo se resumia a querer ouvir do palestrante se ele acredita ou não acredita que somos visitados por E.T.s inteligentes. Lamento esta irritação. Não entenderam a proposta do evento. Bem, se a minha posição te interessa, tenha um pouco de paciência. No final do texto, eu digo qual é.

Há também a perspectiva psicológica, que busca investigar os supostos contatados, levantando questões tais quais: estes alegados contatados sofrem de algum transtorno psicológico? A investigação realizada no contexto brasileiro demonstrou que não – ou, ao menos, não apresentam nenhum “transtorno” que as diferencie do resto da humanidade não-contatada. Leonardo Martins, do Instituto de Psicologia da USP, realizou intensa investigação com pessoas que se dizem contatadas, e não diagnosticou nenhum traço de transtorno nelas. Constatou, entretanto, que tais pessoas apresentam traços de personalidade em comum: costumam ser otimistas, sociáveis e mais inclinadas a encontrar sentido na vida. E, antes que você se confunda, “acreditar numa inteligência por trás dos crop circles” não faz você ser mais otimista. É o fato de você ser mais otimista e dado a encontrar sentido na vida que lhe faz crer nesta teoria. Note que a pergunta é pontual, e a resposta idem: o psicólogo não está interessado (pelo menos não como psicólogo) em responder se os contatos são ou não são reais. A pergunta é pontual: estas pessoas são “malucas”? A resposta é igualmente pontual: em geral, não são. Pelo menos não mais do que qualquer outra pessoa.

Leonardo Martins chegou a participar de vigílias ufológicas, com mais de 500 pessoas, e teve a oportunidade de avistar uma estranha luz no céu. O depoimento do psicólogo é interessante, por exemplificar bem o problema do relato ou, melhor dizendo: por que um relato não constitui “prova fidedigna”? Ora, isso deveria ser óbvio: as pessoas mentem, conscientemente ou inconscientemente. Ampliam coisas. Lembram errado. São induzidas a lembrar de coisas que não aconteceram. E isso não tem nada a ver com ter alguma deficiência mental. Acontece comigo e com você, que me lê. Há incontáveis pesquisas sobre psicologia cognitiva que demonstram isso. Voltando à história contada por Leonardo: ao participar destes “grupos de vigília”, você muitas vezes é submetido a palestras intermináveis em tom monocórdico. Caminha por trilhas quilométricas, muitas vezes comendo mal e bebendo pouca água. Então, do nada, aparece uma luz no céu. Ao verificar o que as pessoas viram, Leonardo não encontrou uniformidade: algumas tinham visto uma pequena luz; outras, uma luz enorme; algumas chegaram a ver janelinhas e portas. Mas o que aconteceu com o tempo? Com o tempo, as versões humildes desapareceram, sendo substituídas por uma uniformidade que não havia antes. Eis que todos se lembravam da mesma coisa: uma luz enorme, com portas e janelinhas perfeitamente identificáveis. Ora, este é um fenômeno psicológico fascinante e por si só já vale a pesquisa, independentemente do fenômeno dizer respeito a naves alienígenas ou não!

Eu já participei de grupos assim. Era uma espécie de vigília ufológica na cidade de Diamantina, em Minas Gerais, com grupo esotérico. Todas as pessoas envolvidas eram muito inteligentes e a inteligência nestes casos pode ser um problema: você vê sentido em tudo, encontra padrões e faz conexões, podendo até mesmo ter experiências de alteração da consciência. Isso é próprio da inteligência humana. De repente, até um galho que balançava com o vento era “sinal” de alguma coisa.

Mas, bem, isso não tem nada a ver com “loucura”.

Em nenhuma das perspectivas acima elencadas se busca responder a questões tais quais “existe vida fora da Terra?”, ou “alienígenas inteligentes nos visitam?”. Se ao antropólogo importa o fenômeno social, ao psicólogo interessa a questão psíquica. Eles levam a sério as alegações – o que não significa que acreditem ou desacreditem delas, inclusive se esforçando para não contaminar seus objetos de estudo com suas perspectivas particulares.

Particularmente, o que me interessa é a perspectiva astrobiológica, que busca investigar as seguintes questões: existe vida fora da Terra? Quais os procedimentos, tecnologias passíveis de permitir a identificação da vida alienígena? Quais os locais de melhor aposta para realizarmos tais investigações? E por que estes locais representam uma melhor aposta? A perspectiva astrobiológica não necessariamente envolve a investigação de vida inteligente, mas ela existe – caso do projeto SETI, por exemplo. Nesta perspectiva, temos também algumas questões filosóficas cujas respostas possibilitam abertura e reformulação como, por exemplo: o que é a vida?

Diferente das perspectivas antropológicas e psicológicas, a astrobiologia busca responder, sim, se existe vida fora do planeta, seja ela inteligente ou não. No caso, a pergunta “você acredita em vida fora da Terra?” é até redundante. Se a pessoa resolve dedicar seu tempo a este estudo, é porque aposta, sim, que exista vida alien. Se somos visitados por E.T.s inteligentes ou não, isso é outra questão e, lamento, não há nenhuma evidência física de que sejamos visitados. Adoraríamos que tais evidências existissem! O departamento de Astrobiologia da NASA, por exemplo, teve muitos de seus recursos cortados. Qualquer evidência, por menor que fosse, ajudaria muito no sentido de possibilitar recursos financeiros para continuarmos nossas pesquisas. Mas não podemos criar evidências que inexistem. Isso não seria nada honesto.

Há também duas perspectivas que não fizeram parte deste evento, mas que podem integrar encontros vindouros: a perspectiva ufológica científica e a perspectiva ufológica mística.

A perspectiva ufológica científica busca estudar os fenômenos, buscando descobrir se eles são, de fato, inexplicáveis. O ufólogo científico quer descobrir o que é, afinal, aquela luz estranha no céu. Quer descobrir a verdade de um alegado contato. Em geral, o que os ufólogos científicos constatam é que o fenômeno não passou de mal entendido, má interpretação do que foi visto, ou mesmo fraude. Uma ínfima parcela entra na categoria “inexplicável”.

Eis o problema: de “inexplicável” para “indubitavelmente atividade alien inteligente”, há um oceano de distância! Mas algumas pessoas dão este “salto”, em decorrência do pensamento desejoso. Querendo que algo seja verdade, convertem “o que não tem explicação no momento” em “extraterrestre”. Nem todo ufólogo científico faz isso e, vale dizer, se o fizer não é lá muito científico…

A perspectiva ufológica mística me parece a mais complicada, por partir de uma certeza absoluta de que os E.T.s não apenas são reais e nos visitam, como são seres superiores que vieram nos ajudar. É muito difícil lidar com esta perspectiva, pois ela tem mais certezas do que dúvidas e, via de regra, tem emoções fortes envolvidas e seus preconizadores costumam se ofender – muito! – quando suas certezas são colocadas em xeque. Esta perspectiva merece um post só sobre ela – escreverei em breve sobre isso.

Resta, então, me posicionar. Não há uma resposta simples porque, na verdade, são muitas as perguntas:

1. Você acredita que exista vida fora da Terra?

Claro que acredito, baseado na evidência de nosso próprio exemplo. Se há vida na Terra e o Universo é tão imenso, por que não haveria vida em outro lugar? Suspeito fortemente que a vida microbiológica seja bastante comum, e aposto que exista em nosso próprio Sistema Solar.

2. Você acredita que existam alienígenas inteligentes?

Mais uma vez: acredito, baseado na evidência de nosso próprio exemplo.

3. Você acredita que estes alienígenas nos visitem?

Não. Não temos nenhuma evidência de que tais visitas ocorram. Tudo o que temos são relatos (relatos não constituem evidência, mesmo que a pessoa acredite muito neles) e, sinceramente, tomar os tais “crop circles” como “evidência” é contestabilíssimo, evocando diversas questões: por que um alienígena artista plástico faria desenhos em plantações? Para sinalizar que existe? Se ele pode sinalizar que existe, por que não se apresenta? Você ignora que existem pessoas que fazem estes desenhos usando corda e madeira, por pura diversão? Uma participante do evento disse que “era impossível” que um ser humano conseguisse fazer, tão rapidamente, desenho tão sofisticado. Ingenuidade dela. Faltou pesquisar:

Aqui também: como fazer um crop circle:

O mais curioso é que os “circlemakers” não tentam fazer a coisa como “fraude”. Mesmo fazendo o círculo e anunciando que o fizeram, em questão de semanas os jornais sensacionalistas divulgam as fotos da obra de arte como se a coisa fosse “misteriosa”, dando a entender que houve interferência alienígena. Ao que parece, tudo começou com gente fazendo os círculos escondido, pra causar alarde e dar risada das centenas de pessoas que corriam para fazer danças esotéricas na arte rural. Mais ou menos assim:

Foram os anjinhos do céu que fizeram!

Foram os anjinhos do céu que fizeram!

Desejar que uma coisa seja real não a torna mais real.

Se assim fosse, feliz da minha conta bancária!

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