Carta ao leitor NERD

O texto a seguir é uma versão “cortada”, para evitar spoilers, do romance científico “Dezoito de Escorpião”, a ser lançado em breve.

Carta ao leitor nerd

Torço para que vocês tenham se divertido lendo este livro tanto quanto eu me diverti o escrevendo. Vamos a uma última conversa? Apesar de eu endereçar estas palavras ao “leitor nerd”, fique à vontade para lê-las ainda que não se considere um. Entre em contato com seu nerd interior e me acompanhe.

Quando lemos um conto ou assistimos a um filme ficcional, nós costumamos realizar – de modo pouco consciente, a bem da verdade – um exercício chamado suspensão da descrença. Fazemos de conta, por algumas horas, que a realidade a nós apresentada sob a forma de ficção é aceitável. Deste modo, a nossa mente lida com elementos altamente improváveis, como [cortado para evitar spoiler], e tantas outras coisas. A quantidade de improbabilidades que se desfilam ao nosso olhar  no universo de filmes e contos é, dirão alguns, uma sofisticada forma de evasão. Outros, mais abertos, verão na fantasia um saudável exercício de criatividade. De fato, se no século XIII alguém escrevesse um conto de ficção que considerasse a existência de meios voadores de transporte ou a possibilidade de uso de pequenas caixas que permitem a comunicação à distância, isso não seria evasão. Seria antecipação criativa, e das boas! Vários autores fizeram isso, em maior ou menor grau, antecipando coisas que passaram a existir no que para eles é futuro e para nós é presente. Ainda assim, não é obrigação principal da ficção científica “prever o futuro”, embora isso possa até acontecer como efeito colateral. Tampouco é obrigação da ficção científica ser “cientificamente correta”.

A proposta principal da ficção científica é – surpresa! – entreter. Divertir.

Há, entretanto, um tipo de pessoa que é constantemente acusada de não conseguir exercitar o jogo lúdico da suspensão da descrença: os cientistas. Tal acusação sempre me pareceu por demais injusta, mesmo antes de me tornar – eu mesmo – um estudante de ciências.

De fato, cientistas em geral costumam se divertir apontando os absurdos científicos que se desfilam em obras ficcionais. Em Guerra nas Estrelas, temos sons de explosão no espaço sideral. Mas como, se o som não se propaga no vácuo? Uma nave pousa no planeta Saturno em Jornada nas Estrelas. De que forma, se Saturno é um planeta gasoso? Qualquer nave capaz de resistir à poderosa gravidade deste planeta, aproximando-se sem se destruir, dificilmente encontraria superfície sólida para pousar. Uma explosão gama transforma um homem franzino numa criatura fortíssima, como em O Incrível Hulk, sendo que em verdade a fatídica consequência da exposição à radiação gama direta seria a morte imediata do organismo. Em fóruns virtuais de discussão de ficção científica, não é incomum que nos vejamos diante de listas do tipo “as maiores bizarrices contidas em filmes ficcionais”. Neste parágrafo, apresentei apenas três. Acredite: a lista é pelo menos vinte vezes maior. E meu livro deve ter umas tantas outras!

Pesa em favor dos amantes da ciência o fato de que tais exercícios de “identificação de bizarrices” e erros científicos constituem tão-somente uma forma bem humorada de demonstrar conhecimento. Na prática, verifico o oposto: cientistas e estudantes de ciências adoram suspender a descrença, e não apenas lidam muito bem com distorções da realidade, como apreciam este tipo de exercício. Porque, de fato, é muito difícil encontrar uma alma de cientista que não aprecie, ao mesmo tempo, a ficção científica.

Este livro está recheado de informações científicas reais mescladas com pura fantasia. Nos agradecimentos iniciais, eu fiz uma recomendação: saiam dando Google em tudo. Vocês ficarão felizes em descobrir que algumas coisas muito legais são verdadeiras. Como, por exemplo, [cortado para evitar spoiler] Ainda que eu o tenha inserido em diversos momentos nesta história, é claro que as coisas não se deram do jeito que vocês leram. Lembrem-se: este é um livro de ficção. Se insiro aqui fatos reais ou mesmo nomes reais, é para que vocês se sintam instigados a pesquisar. Pesquisem sobre [cortado para evitar spoiler]. Averiguem a  [cortado para evitar spoiler]. Investiguem e descobrirão que há, de verdade, um artigo aprovado por [cortado para evitar spoiler]. Chequem e descobrirão: [cortado para evitar spoiler].

Eu sei que há quem se chateie por eu ter inserido elementos parapsicológicos na história. Mas, ora, a história é minha e eu a deixo tão maluca quanto quiser! Se Arthur Clarke, gênio que era (e sim, o personagem principal é uma homenagem ao Mestre), inseriu o famoso tabuleiro ouija – sucesso em reuniões espíritas adolescentes – em seu livro “O Fim da Infância”, por que eu não poderia evocar algo tão banal quanto [cortado para evitar spoiler]? Ademais, lembrem-se da terceira lei de Clarke: não existe magia, não existe “paranormalidade”, existe apenas ciência que ainda não conhecemos!

E o futuro talvez seja muito, muito mais mágico do que eu ou ele conseguimos imaginar.

A própria Física, por exemplo, não diz respeito necessariamente à realidade em seu sentido estrito. Estudantes lidam com ficção o tempo todo em suas provas: desconsidere o atrito do ar, pede o exercício, exigindo que acreditemos num mundo em que o ar não provoca atrito; considere que se trata de uma polia ideal, declara o professor ao apresentar uma prova final. Sempre que um exercício apresenta as palavras considere e desconsidere, ele está na prática solicitando uma suspensão da descrença. Está a dizer: isso é ficção, ok, mas acredite nisso por um minuto, pois apenas assim você poderá resolver o exercício. Os exemplos são vastos, e têm por objetivo compensar o fato de que a Física não se enquadra perfeitamente no que chamamos de “ciência exata”, sendo melhor definida como uma “ciência da natureza”. E, bem, não é preciso um olhar muito atento para compreender que a natureza escapa a modelos exatos. Se fôssemos considerar a realidade tal qual ela é num exercício de Física, teríamos que levar em conta muito mais elementos do que costumamos utilizar!

O emaranhamento da ficção com a Física é muito mais amplo, e não se limita a questões apresentadas a estudantes de graduação. A situação se torna problemática quando o próprio físico, sobretudo o contemporâneo, não parece consciente dos pontos falhos existentes naquilo que filósofos da ciência chamam de “credo do físico ingênuo”. Uma das premissas da Física, por exemplo, é a de que a observação é a fonte de todo conhecimento físico. Será mesmo? Em parte, tal afirmação é verdadeira, pois é evidente que a observação fornece conhecimento. Todavia, é inegável que o conhecimento físico vai além da mera observação empírica. Físicos estão a todo momento postulando a existência de entidades inobserváveis: elétrons, por exemplo. Ninguém “vê” um elétron. Considera-se que ele exista, pois sua existência permite a plausibilidade de modelos teóricos que têm se revelado como muito consistentes até o presente momento. Não é nada impossível que, no futuro, abandonemos este modelo e o substituamos por outro.

Epa! Note que não estou dizendo que tudo o que temos é ilusão. É perfeitamente razoável considerar como verdadeiro o conhecimento científico que ora temos. Se ele um dia se revelar incompleto ou incorreto, mudamos o modelo. Esta é a grande vantagem da ciência sobre os dogmas.

O exercício da imaginação é, portanto, parte integral do cotidiano não apenas de um autor de obras ficcionais, mas também de todo e qualquer cientista. Conforme nos explica o filósofo Hans-Georg Gadamer, a obra de ficção não parte do nada. Ela leva em conta um recorte da realidade, mas vai muito além da realidade em si. Não se trata de uma simples transferência de um mundo (real) para outro (ficcional). Veja bem: é claro que o mundo ficcional é outro mundo, fechado em si, no qual um jogo é jogado. Esta dimensão ficcional encontra sua medida nela própria, e não deve ser julgada a partir de nada que esteja fora de si mesma, de seu próprio “novo universo”. É absolutamente injusto compararmos a ficção com a realidade cobrando acertos científicos, como se tal realidade fosse a medida secreta de todas as coisas. A ficção científica, portanto, pode – ou não – ser uma previsão de nosso futuro.

Assim como num exercício de Física, quem cria um novo mundo tem de deixar coisas de fora, ou mesmo exagerar algo. Toda criação artística ficcional é um exagero, um exercício que em alguns momentos encontra ecos em nosso mundo, oras não. E, como nos ensina Gadamer, é totalmente absurdo querer supor que exista uma “representação correta” da realidade, em face de nossa finitude histórica. Por isso, filosoficamente falando, podemos afirmar que toda criação artística e ficcional é, em si mesma, absolutamente correta. Trata-se de um mundo novo, com leis próprias. Dito de outro modo, no mundo de Guerra nas Estrelas, o som se propaga no vácuo. No mundo do Incrível Hulk, raios gama podem tornar as pessoas superfortes. E, no planeta Saturno de um universo paralelo, é possível pousar. No mundo de Clarke o tabuleiro ouija revela segredos e, no meu mundo, [cortado para evitar spoiler]. Simples assim.

O que desejo? A partir do romance ficcional, a partir deste outro mundo, desejo instigar a curiosidade do leitor para maravilhas fascinantes do nosso próprio mundo, fazê-lo se apaixonar pela ciência e, sobretudo, pela Astronomia. Se em algum momento eu por acaso acertar em meus exercícios futurológicos, saiba que isso foi apenas coincidência. Às vezes os universos colidem, e a fantasia se revela mais verdadeira que a realidade.

A vida é mesmo uma coisa incrível, não é?

Alexey Dodsworth

São Paulo, Brasil, primavera de 2013

Um pensamento sobre “Carta ao leitor NERD

  1. Republicou isso em Me Odeia? Deita na BR.e comentado:
    O Alexey é um cara que gosto muito e ele é super inteligente. Sou fã, admito.

    Neste texto ele explica o fato do pq haver ficção científica. Simples assim. Talvez lendo esse texto a gente pare de caçar cabelo em ovo e comece a se focar para o que realmente importa.

    E já quero comprar Dezoito de Escorpião. 😀

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