A cidade e as estrelas

Há quanto tempo você não olha as estrelas no céu? Talvez faça bastante tempo, mas essa desatenção não é exclusivamente culpa sua. Mesmo fazendo parte de uma cultura divorciada do céu, as nossas cidades não são os lugares mais propícios para ver o céu estrelado. Vejam, no quadro comparativo abaixo, a diferença entre o céu visto dentro de uma cidade grande, e como tudo muda quando o ambiente muda. O fato é: além da poluição sonora e da poluição do ar, sofremos de poluição luminosa.

imagem01

Pouco se fala da poluição luminosa. Sabemos que a poluição do ar e do som fazem mal à saúde física. A poluição luminosa, por sua vez, faz mal ao nosso espírito, embotando o nosso encantamento diante do cosmo. Do mesmo modo que as partículas poluentes suspensas no ar diminuem o nosso sentido do olfato e nos envenenam os pulmões, a luz artificial das cidades grandes desvia nossos maravilhamentos. Não nos maravilhamos com as constelações e estrelas cadentes. Nos maravilhamos com os outdoors. Nossa perspectiva de encantamento há muito deixou de ser vertical e se limita à horizontalidade. Nossas novas estrelas e constelações são os brilhos publicitários dos shoppings e McDonald’s da vida.

url

Que não se pense que isso é apenas um problema estético. A poluição luminosa, assim como qualquer outro tipo de poluição, também perturba a nossa saúde. Diversos estudos apontam que o excesso de luz artificial prejudica a liberação de um hormônio chamado melatonina, e isso aumenta os riscos de alguns tipos de câncer, como o de mama. A pineal só libera melatonina em situações de escuridão. Mas se você dorme influenciado pelas novas estrelas pós-modernas, seja com o computador ou TV ligados em seu quarto, ou com o celular acendendo o tempo inteiro com mensagens do whatsapp, ou com a cortina aberta e sua janela dando direto para um letreiro luminoso, você perturba a liberação de melatonina e, consequentemente, seu ciclo de sono.

A poluição luminosa perturba também a ecologia. As luzes artificiais perturbam aves que se orientam pela luz estelar. Seus ciclos de migração e reprodução ficam embaralhados. Há aves que voam sem parar em torno de focos intensos de luz e caem de cansaço. Determinadas plantas param de florescer, ou florescem precocemente.

E esta é a dimensão do desastre em seu sentido mais literal. A palavra “desastre” significa literalmente “sem os astros”. “Des” é “sem”, e “aster” significa, evidentemente, “astro”. Estamos condenados ao dia e ao brilho artificial.

Estima-se que a poluição luminosa de uma cidade grande afete um raio de 100 km em torno. Pra vocês terem uma ideia, o único lugar na Europa inteira onde se pode ter uma experiência de céu pleno é no norte da Escandinávia!

Resta óbvio que a relação das pessoas em geral com o céu, com o cosmo, está prejudicada. O céu foi retirado de nossa perspectiva cotidiana, não faz parte de nossas cidades.

Mas nem sempre foi assim. Todas as culturas antigas tinham o céu como parte de suas cidades, em maior ou menor grau. Vejam o caso dos índios Bororo, bastante presentes no Mato Grosso do Sul de antigamente [atualmente, reduzidos a menos de 2 mil indivíduos]: suas aldeias eram construídas levando em conta as posições celestes em seus mínimos detalhes. A aldeia deveria ser um espelho do céu. Ao transitar pela aldeia, era como se o nativo brasileiro também transitasse pelo céu. A constelação das Plêiades, chamadas por eles de akiri-doge, é o norte espiritual, político e social dos Bororo. Ao longo de um ano inteiro, as Plêiades [Akiri-Doge] desaparecem por apenas um mês. Isso marca a mudança da estação da seca para a estação chuvosa.

Isso nos remete à reflexão em torno de outra palavra nossa conhecida: considerar. “Considerar” vem de “co-sidereos”, ou seja, com as estrelas. Se alguém “considera”, está em harmonia com o céu, com os astros. Eu posso considerar o que alguém me diz. As estrelas, no caso, são as palavras da pessoa. Eu posso considerar o que leio num livro. As estrelas são as letras, dançando diante de meus olhos. Mas a origem de “considerar” envolve algo mais amplo. Envolve olhar pro céu e se maravilhar.

Olhar para as estrelas é, ao mesmo tempo, olhar para o passado e para o futuro.

A contemplação do céu estrelado é um ato capaz de reunir em si duas coisas aparentemente contraditórias. Quando olhamos para as estrelas, estamos mirando ao mesmo tempo o passado e o futuro.

Miramos o passado porque a luz estelar que nos alcança é, dada a distância das estrelas a nós, a luz enviada há muito, muito tempo. Se uma estrela dista 10 anos-luz da gente, então a luz que eu vejo dela é a luz que foi enviada dez anos atrás. Em meu romance lançado em 2014, “Dezoito de Escorpião”, a história gira em torno de uma estrela chamada HR6060, uma gêmea perfeita de nosso Sol. Ela está a 50 anos-luz de nós, ou seja, quando olhamos para ela, vemos a luz que ela enviou 50 anos atrás. Ora, a luz que nós vemos de nosso próprio Sol é a luz de oito minutos atrás! Como diz o Dr. Manhattan, um dos personagens dos quadrinhos “Watchmen”: tudo o que vemos no céu são velhas fotografias.

Mas o céu é, também, o lugar do futuro! Porque, se quisermos sobreviver, em algum momento teremos que ir para lá. Provavelmente não nós, nem nossos netos, bisnetos ou nem os bisnetos de nossos bisnetos. Mas se a humanidade quiser sobreviver, ela precisará ultrapassar os limites que a prendem à Terra. Teremos que construir novas cidades no céu. E isso é possível? Sim, perfeitamente possível.

O filósofo francês Michel Foucault costumava dizer que há uma diferença entre fábula e ficção. A fábula conta o já ocorrido e tenta extrair uma lição a partir da história. Já a ficção é o ato de se libertar dos limites, imaginando o futuro, imaginando alternativas. Mesmo quando a ficção é apavorante, ela alerta para perigos de um futuro possível.

Por exemplo: colonizar o planeta Marte e construir cidades por lá seria algo possível? Tecnicamente falando, sim, perfeitamente. Difícil, com muitos desafios e sacrifícios, mas possível. Uma ficção que trata da sobrevivência no planeta vermeho é “Perdido em Marte”, de Andy Weir, que vai virar filme em breve. Ficções que giram em torno do planeta Marte são muito atrativas porque este planeta é, na prática, a próxima fronteira humana. É provavelmente o primeiro lugar que será colonizado por nós, num futuro que talvez eu e você vejamos.

A ideia de cidades interplanetárias nos é muito cara, porque algo dentro de nós nos diz que nosso destino está nas estrelas. Não se trata de apenas de pretender dizer nosso futuro, como se faz, por exemplo, na astrologia. Trata-se principalmente de mostrar onde está nosso futuro. Como acontece no filme “Interestelar”, no futuro teremos que encontrar novos mundo para onde ir. Não necessariamente porque a Terra virou um lixão. Espero que não. Talvez por curiosidade mesmo. Ou, talvez, porque em algum momento a Terra irá morrer, ou mesmo o nosso Sol. Já há até projetos da iniciativa privada, como o Mars One, que pretende colonizar Marte em breve. Se irão conseguir, não sei dizer. Mas a ideia está aí, firme e forte e, na minha opinião, é tudo uma questão de tempo.

roadmap2024

 

Já começamos a encontrar mundos que talvez possibilitem cidades interplanetárias. Recentemente, os astrônomos descobriram um planeta em órbita de uma estrela chamada Kepler 186. Esta estrela, localizada na direção da Constelação de Cygnus, está distante quase 500 anos-luz da gente. Isso significa que se voássemos pra lá na velocidade da luz, levaríamos 500 anos para chegar. Um dos planetas desta estrela tem um tamanho praticamente igual ao da Terra. Este planeta se encontra na chamada “zona habitável”, isto é, uma região do espaço que permite a existência de água líquida. Pode ser que este planeta tenha um oceano! Pode ser que já tenha vida. Ou, mesmo que não tenha, ele tem algumas condições que nos permitiriam criar cidades. Uma cidade interplanetária. Esta talvez seja a morada dos bisnetos dos bisnetos dos bisnetos de nossos bisnetos. Ou talvez seja um mundo já habitado. O problema são as limitações físicas: se enviarmos uma mensagem para lá agora, ela vai chegar no ano 2500. Então, mesmo que haja aliens que nos respondam, a mensagem de resposta vai chegar pra gente no ano 3000.

Kepler186f

A CIDADE E AS ESTRELAS

 “A Cidade e As Estrelas”, título de nossa palestra, é também o título de um dos mais famosos livros do escritor Arthur Clarke. Este livro conta a história de Diaspar, uma cidade futurista regida por supercomputadores capazes de governar o lugar a partir de critérios da mais perfeita lógica. Os humanos de Diaspar vivem mil anos e, após a morte, reencarnam com lembrança perfeita de quem foram. É a reencarnação sem desperdício. Mas enquanto não dispomos da reencarnação perfeita, isto é, do poder de morrer e voltar com conhecimento pleno da vida anterior, de que maneira podemos preservar nossos legados? De que forma tudo o que eu sei, tudo o que eu aprendi não será um total desperdício, já que levarei tudo para o túmulo?

Isso já existe, e é o que estamos fazendo aqui. Ensinamos coisas uns aos outros. Alguns de nós durarão menos, outros mais. Mas o que ensinamos uns aos outros continua vivo, sendo passado de geração após geração, seja formalmente ou informalmente, com ou sem distorções, de uma forma tal que eu me concedo o privilégio de ser bastante otimista no que diz respeito ao futuro da humanidade. Quando este nosso mundo não mais existir, nosso legado se manterá, seja nas cidades cósmicas criadas em Marte, em Kepler 186 ou em qualquer outro lugar de nosso vasto, incomensurável Universo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s